segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O LIRISMO DO SOFRER: AS IMAGENS DA FRAGILIDADE - Paloma do Nascimento Oliveira

Voa, voa, voa, passarinho/ leve as penas do destino/
vai ao meu amor contar/ que eu não sei viver sem teu carinho/
sinto falta dos teus braços/ e da luz do seu olhar
Geraldo Azevedo


A obra O vôo da guará vermelha, de Valéria Rezende, retrata um cotidiano de duas pessoas com mundos distintos, mas em ambientes psicológicos bem próximos inicialmente, num mundo de concreto que “proíbe qualquer horizonte”, onde o céu não passa de um pesado teto cinzento e baixo tocando o topo dos prédios; as nuvens nem lhes permitem ativar o imaginário não se consegue construir uma vida feliz diante dessas cores pesadas.
Com os capítulos nomeados por cores podemos falar que se trata de um livro diferente no que diz respeito ao próprio aspecto visual – não só por ressaltar imagens tão fortes como as das cores, mas também por utilizar nomes pouco comuns para designá-las como o encarnado, o negro, o ocre, o bonina, o ouro, o prata e azul sem fim.
A começar pela capa, podemos dizer que estamos diante de um livro singular em se tratando do aspecto visual. Com muitas imagens desde o prefácio, que arriscamos neologizar como ‘desprefaciado’ – por fugir do convencional e não conter marcação de páginas ou referência, tendo como indicação apenas os nomes de cores já citados -, o romance é fascinante e é o motivo pelo qual propomos aqui uma análise dessa ‘diferente’ narrativa.
Pretendemos aqui focalizar em especial o recurso imagético utilizado pela autora de forma lírica no romance. Essa imagem aqui será analisada segundo a conceituação de Bosi: “O perfil, a dimensão, a cor. A imagem é o modo da presença que tende a suprir o contato direto e a manter, juntas a realidade do objeto em si e a sua existência entre nós”. Também aspiramos, em meio à análise ressaltar a condição fragilizada em que os personagens da história se encontram diante da doença da prostituta Irene.
A imagem, assim como outros recursos estilísticos, é uma forma de representação das sensibilidades humanas e na obra sobre a qual tecemos nossas reflexões vemos que é dessa imagem que se pode perceber um modo peculiar de escrita na autora, nos levando ao que nomeamos de lirismo do sofrimento. Desse lirismo é possível observar que, de um enredo calcado em sofrimento e privações pode-se apreciar construções poéticas como: “Rosálio lançou perguntas que o vento levou de embolada com pedaços de papel sujo” (p. 12); e que não apenas na poesia encontramos uma estética voltada para belas construções, mas a narrativa também possibilita esse trabalho com as palavras.
Estudar o uso desse recurso da imagem na narrativa requer uma atenção especial, visto que diante do hibridismo presente de forma marcante nos textos literários encontramos o desafio de atentar para a sensibilidade da autora, no processo de escrita da obra, em construir uma lírica na narrativa, para tanto nos apoiamos nos ensinamentos de Bosi, para quem “O alvo a atingir era e ainda é compreender uma linguagem que combina arranjos verbais próprios com processos de significação pelos quais sentimento e imagem se fundem em um tempo denso, subjetivo e histórico.” (BOSI, 2000, p. 09).
No grande vôo dessa história encontramos no caminho o forte desejo que Rosálio, um homem que se sente incompleto por não decifrar as letras, tem de aprender a ler. Para esse homem há uma fome maior que a do corpo. Ele sente fome de outras coisas:

Uma fome da alma que aperreia Rosálio (...) Fome de palavras, de sentimentos e de gente (...). Fome de verdes, de amarelos, de encarnados (...) a fome do corpo o ajudou a separar de muitos odores estranhos e cinzentos que parava por entre os muros (p. 11)

De imediato vemos o recurso da utilização de cores para representar as ânsias de um Rosálio que reflete tantos Joãos, Josés, Marias, tantos seres comuns que se angustiam por ter vontades inalcançáveis em alguns momentos da vida, quiçá pela vida toda. Essa fome da alma pode ser relida como os desejos mais profundos do interior do homem que não desistiu de viver, pois na própria imagem da cor verde encontramos os fios de esperança que o amarelo do sol e o encarnado do sangue apontam para a vida.
O encontro das duas almas é marcado por essa forte presença de cores:

Rosálio vê primeiro a mancha vermelha em movimento, surpreendendo-o na dobra da esquina, luz, lufada de ar que alivia a garganta engasgada pelo cinzento, só depois vê a mulher dentro do vestido encarnado, a metade de um sorriso aparecendo devagarinho na cara dela, a mão acenando repetidamente, “vem, vem” (...) o quarto, um cheiro de humanidade, antigo, múltiplo, concentrado, cores desmaiadas, manchadas, mas cores, todas as cores, todas as cores, em trapos de vestir. (p.15)

As cores se fazem em imagens profundas. Aquilo que a autora poderia citar apenas como um vestido vermelho é recriado como “a mancha vermelha em movimento”; descrito assim, um vestido comum ganha intensidade, saindo de uma descrição simples para uma figura carregada de lirismo: “vestida de verde (...) ela esperava palavras que ele trazia. Irene, revestida de esperança” (p. 23).
Uma garganta que se acha engasgada pelo cinzento de um mundo de poucas oportunidades encontra no encarnado e na metade de um sorriso o fio de alegria que necessita, assim são os sentimentos dos dois se entrelaçando e conduzindo um enredo apinhado de sinestesias, cujas cores têm gosto, aroma, dor. Logo vemos em outros trechos da obra: “O roxo por toda parte, no peito, nas costas, coxas, que Irene sente queimando, nem carece examinar, ela sabe muito bem, não é a primeira vez” (p. 179); “O coração, agora, mais vermelho, lhe diz que amanhã mesmo volta” (p. 19).
Entretanto, enquanto Rosálio tem fome da alma, Irene, não menos importante na narrativa, se coloca como um ser humano ferido, com uma alma carregada de dores trazidas do passado: “Os olhos da mulher, súplica e esperança, o meio sorriso, ferida aberta no meio da cara” (p. 16); dores estas que apenas acentuavam uma vivência com seu eu que parece querer deixar de existir: “o ensinamento me serve para suportar a pouca vida que me resta.” (p. 80). Não apenas a doença, mas tais fatos dolorosos de sua vida a tornaram, paradoxalmente, uma mulher de sensibilidade fragilizada e forte simultaneamente:

Espera por ele, certa de que hoje ainda vem, ela já teve clientes, já tem dinheiro guardado, pode folgar esta noite e voar ela também nas palavras que ele traz. Abre uma porta do armário, hoje quer estar bonita, escolhe o vestido roxo que há tempo não veste, vê-se no espelho rachado, parece que agora é antes de que tudo começasse, quando ainda não se via moldura roxa nos olhos e o resto da cara branca como folha de papel, quando Irene era bonita. (p. 35)

Irene em seu mundo misturado em cores alegres e pesadas leva consigo a dor e a necessidade de viver pelo outro mais que por si e com a amizade de Rosálio ela descobre que pode ainda ter prazer, mesmo diante de sua situação.
De maneira ousada, a autora procura nos apresentar um infindo de sensações peculiares da personagem. Irene não é apenas uma prostituta, nessa história ela é um ser humano e como qualquer outro tem sonhos e desejos de dias melhores e revestida da esperança e em alguns momentos ainda se permite sonhar:

Ai, Rosálio, se eu soubesse, há muitos anos atrás, que um homem assim existia, capaz de fazer com a fala um mundo maior que o meu, um mundo cheio de histórias de sorrir e de chorar, que me tirasse das sombras do medo de me acabar sem mesmo ter começado, a viver a vida que preste, que fizesse o amarelo, o azul, o verde, o rosado expulsar a cor de cinza desta alma que eu carrego como uma barra de chumbo. (p. 95)

A doença de Irene, ou melhor, a condição frágil em que esta se encontra diante da doença é algo que também nos chama atenção em nossa leitura:

A doença é quase sempre um elemento de desorganização e de reorganização social; a esse respeito ela torna freqüentemente mais visíveis as articulações essenciais do grupo, as linhas de força e as tensões que o traspassam. O acontecimento mórbido pode, pois, ser o lugar privilegiado de onde melhor observar a significação real de mecanismos administrativos ou de práticas religiosas, as relações entre os poderes, ou a imagem que uma sociedade tem de si mesma (PETER et REVEL, 1995, p. 144).

Enquanto estado de enferma como em seu momento de morte observamos que os ensinamentos de Peter et Revel se encaixam no contexto da obra. Sabemos que a qualidade de portador da AIDS em nossa sociedade gera conflitos pessoais constantes e, não por menos, em O vôo da guará vermelha pode-se detectar que a doença é um elemento de desorganização e reorganização social para o desenvolvimento do enredo: “Irene sabe, a doença...futuro de algumas horas, talvez não mais que uma noite” (p. 77). Não fosse aquela, Irene seria tão somente uma prostituta mal paga e sua semelhança com a guará e a imagem do vôo teria uma distância considerável. A doença aqui é sim um fator de tensão importante para a construção de imagens e constituição das personagens:

Entendemos que também a doença pode ser vista como algo que expõe determinadas articulações no âmbito particular dos sujeitos que aflige, articulações que dizem respeito às maneiras de ver e dizer o mundo a partir de um corpo fragilizado, a partir dos gritos do organismo, quando a materialidade corpórea acaba falando mais alto que a racionalidade cerebral. (AGRA, 2008)

Esse modo de ver e dizer o mundo que Agra esclarece como determinadas articulações no âmbito particular diz respeito à maneira com que a mãe, a prostituta, a amiga, a amante, constrói seu universo diante da fragilidade que a doença lhe traz. Inconstante, ela “quer ter ainda esperança” (p. 41), em alguns momentos “já despe o vestido verde, escolhe o cor de bonina, quase novo, pouco usado, guardado como promessa de alguma coisa melhor que o dia-a-dia cinzento em que vive há tanto tempo” (p. 50); mas também pensa em dizer a seu amigo: “já não gosto de você, não quero mais perder meu tempo com um homem falador (...) quero que desapareça, que eu não presto pra você, que eu não sou nada, mais nada, um caco de mulher triste, gastando um resto de vida” (p. 70) e acentua: “qualquer dia este chão afunda e a terra me engole” (p. 14). Ou seja, como nos é ensinado nesse momento de enfermidade, a dor do corpo acaba falando mais alto que as expectativas de manter-se viva que o pensamento racional poderia lhe proporcionar.
Não apenas Irene, mas Rosálio também se envolve nesse ambiente enfermo, percebendo as aflições e o cansaço da amiga em diversos momentos:

Já sabe o caminho e encontra logo a mulher que está esperando como nunca nesta vida alguém esperou por ele (...) percebe que a mulher está inquieta, não quer abusar mais dela pedindo-lhe que lhe leia agora a história do livro, pois vê que ela está cansada, mas sabe bem que ela deseja que continue ele a contar a história de sua vida. (p. 36)

Rosálio demonstra sensibilidade diante da condição da amiga-amada e encontra, num momento de debilidade desta, lembranças de uma guará vermelha que se assemelha tanto: “Rosálio sente dó, tanto dó desta mulher!, faz lembrar aquela guará, vermelha, de pernas longas e finas como caniços, que ele uma vez encontrou enredada nos galhos de um espinheiro” (p. 18). Essa mesma guará será relembrada no instante de morte no qual Rosálio se afasta do que Elias (2001) trata como “um dos problemas mais gerais de nossa época – nossa incapacidade de dar aos moribundos a ajuda e afeição de que mais que nunca precisam quando se despedem dos outros homens”, ilustrando esse momento como um dos mais belos trechos do livro: “Rosálio, me solte no azul sem fim. Rosálio colhe nos braços a sua guará vermelha, colhe na boca um sorriso que verte um encarnado vivo e a cobre inteira de plumas, tingindo todas as mágoas, transfigurando-lhe a dor.” (p. 180).
Diante de tantas imagens de fragilidade e de tentativas de superação de uma doença terminal, a autora dá um destino aos personagens distinto do que seria o tradicional final feliz. Desse modo, podemos dizer que estamos diante de um livro donde se pode extrair uma experiência única em sua leitura, fazendo jus ao título e nos levando em seu grande vôo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGRA, Giscard F. Memórias do leito de morte: delírio patológico de Brás Cubas ou acerto de contas com a modernidade? Anais eletrônicos do I Colóquio Internacional de História: sociedade, natureza e cultura. Jul. 2008. Campina Grande, PB: Universidade Federal de Campina Grande, Programa de Pós-Graduação em História, 2008.
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. 7 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos, seguido de “envelhecer e morrer”. [trad. Plínio Dentzien]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2001.
REVEL, Jacques et PETER, Jean-Pierre. O corpo – o homem doente e sua história. In: LE GOFF, Jacques et NORA, Pierre. História: novos objetos [trad. Terezinha Marinheiro]. 4 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995, p. 141-159.
REZENDE, Maria Valéria. O vôo da guará vermelha. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

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