sábado, 7 de fevereiro de 2009

A REPRESENTAÇÃO INFANTIL EM "TARDE DA NOITE", DE LUIZ VILELA - Danúsia Araújo Sampaio Targino

Sem dúvida, Luiz Vilela está entre os ficcionistas (ele não se autodefine como “contista” ou “romancista”, mas como ficcionista) da atualidade que melhor demonstra a condição humana por meio desse gênero literário a que se convencionou denominar “conto”.
Poderíamos, numa comparação entre conto e romance dizer: “o conto está para a fotografia assim como o romance está para o cinema”. Tal afirmação pode causar uma intensa reflexão, a qual poderia ser iniciada pelo entendimento do termo fotografia e do termo cinema. Ambos são recursos de captação da realidade, mas inegavelmente, o cinema será mais abrangente, enquanto o conto/fotografia será um “quadro” único de uma realidade maior. Na estrutura do conto há um só drama, um só conflito. Rejeita-se as digressões e as extrapolações, pois busca um só objetivo, um só efeito.
De posse de tais considerações, pretendemos neste realizar uma pequena análise do livro Tarde da Noite, de Luiz Vilela, não buscando neste o que nos permite dizer que temos o gênero literário conto ali presente, mas simplesmente compartilhar com o leitor nossas experiências diante dos contos de Luiz Vilela, que se destaca, sobretudo, pela capacidade de fazer com que o leitor entre em contato direto com as personagens.Vilela não é escritor do mistério, sua linguagem é simples, marcadamente pelo diálogo, pelo discurso direto livre, pelo uso de termos coloquiais, pelo uso de palavrões, enfim seus recursos lingüísticos e temáticos são os nossos recursos e as nossas temáticas, nossas frustrações, nossas ilusões perdidas, tudo o que envolve o ser humano.
Seria muito pretensioso crermos que nesta análise conseguiríamos apresentar mesmo que de forma razoável todos os aspectos observáveis nos 25 (vinte e cinco) contos que compõem Tarde da Noite, por isso após uma minuciosa leitura, elegemos um aspecto que nos chama atenção na obra e que se faz presente em pelo menos sete contos: a representação infantil.
No primeiro conto, por exemplo, “Lembrança” nos deparamos com um narrador em 3ª pessoa que nos apresenta a trajetória de vida do seu falecido avô. O título “Lembrança” aponta para o que será o conto: uma narrativa seca, sem romantismo aparentemente simples, mas que numa perspectiva forte nos apresentará uma visão desolada de um menino que perde o avô. O que seria uma lembrança senão uma recordação de fatos passados que se conserva na memória, mas que diferentemente da saudade, não significa necessariamente nostalgia.
Percebe-se em “Lembrança” não um melodrama, ou uma idealização das pessoas supostamente mais frágeis, mas há sim um sentimento quase de ternura. A história é contada do ponto de vista do neto (narrador). Não se diz o nome do avô, apenas que “era limpo, que quase não falava, que não pedia as coisas a ninguém, que havia sido ainda cedo abandonado pela mulher e que durante sua vida uma porção de gente o havia traído e ofendido e logrado (p. 7 e 8)”, mas mesmo assim sua distinção fazia até mesmo com que não percebessem sua presença. Interessante é que contrário a esse quase estoicismo do avô explode o humano em toda a sua fraqueza e contradição: “Depois soube que ele tinha cortado os pulsos e aí cortado o pescoço e então enterrado a faca (p.8)”.
Dessa forma, inicia-se o livro, com um conto trágico, sobretudo porque destaca não só a insustentável máscara de um homem que não suporta a angústia de viver, de ser ignorado por sua família, de viver no quartinho dos fundos depois de ter vivido tão intensamente: “Ficava no quartinho dos fundos, e havia sempre tanta gente e tanto movimento na casa, que às vezes até se esqueciam da existência dele (p.7)”, mas também a força que a criança demonstra diante dos grandes dramas da vida. No conto, há uma proximidade entre o neto e o avô, velho de setenta anos, ambos são fragilizados pela sociedade que com uma visão extremamente capitalista, utilitarista, ignora a criança e o idoso, o primeiro porque ainda não produz capital e o segundo porque finda sua vida laborativa também não mais interessa ao mercado de trabalho, ao utilitarismo. Dessa forma, inicia-se a descrição do avô através de frases negativas: “Ele não incomodava ninguém, “Ele quase não falava (p.7)”. O avô parece alguém que está abdicando a vida, está se anulando, está se neutralizando, até a conversa com o neto, única pessoa ao que parece com quem ele conversava era pouca: “Não era sobre muita coisa. Não era muita coisa a conversa (p.7)”.
Diferentemente do que encontramos na maioria dos contos de Vilela, não temos em “Lembrança” a presença do diálogo, mas um outro recurso lingüístico: a poeticidade. Esta aparece em trechos como o seguinte: “Ele estava sozinho no meio da praça, com os braços atrás e a cabeça branca erguida contra o céu. Então pensei que meu avô era maior que a tempestade (p.8), no qual o narrador, o menino descreve um momento vivido com seu avô. O termo “tempestade” pode, sem dúvida, ser entendido metaforicamente, não só como um fenômeno natural que se caracteriza pela agitação violenta da atmosfera, às vezes acompanhada de chuva, mas como a tempestade no sentido de perda da expectativa, perda do sentido da existência. O menino que pensa que o avô era maior que a tempestade ao longo do conto, dirá ao leitor que ele não foi maior que a tempestade, ele não suportou a angústia da vida (tempestade).
Dessa forma, temos que no primeiro conto de Tarde da Noite ,o narrador, um menino, depara-se com um dos maiores dramas da humanidade: a escolha pela morte por não se encontrar razão no existir. O menino não entende a ação do avô de acabar com a própria vida: “ Não sei como deu tempo de ele fazer isso tudo, mas o fato é que ele fez. Tudo isso. Como, eu não sei. Nem por quê (p.8)”. Na realidade, esta confissão do menino de que não entendeu o avô também evidencia a incapacidade humana diante das suas próprias ações, confissão esta que o adulto evita e finge inclusive no intuito de criar para a criança a ilusão de que temos explicação para tudo, quando não a temos.
Já em “Com os seus próprios olhos”,Vilela dá destaque à manipulação adulta sob a criança. Trata-se da história de um diretor que ao ser flagrado por um dos alunos de sua escola acariciando de forma comprometedora outra criança, tenta através do falso elogio e de uma postura autoritária convencê-lo a não dizer o que viu a ninguém. Nesse conto chama atenção a construção do diálogo entre diretor e aluno, pois este evidencia o autoritarismo ao qual nos referimos. O diretor parece interrogar o aluno, o intimida, o pressiona, ou seja, há uma inversão das posições através do diálogo, haja vista que quem deveria estar pressionado era o diretor, já que, na realidade, foi este o cometedor de um delito. Vejamos um trecho que comprova essas afirmações:
Continuava imóvel, e o menino sentado na cadeira, olhava para ele.
- Foi isso mesmo....-sacudia a cabeça devagar.
-Pois muito bem; e se eu te perguntasse agora algumas coisas: você responderia só a verdade?
- Responderia.
-Você não mentiria nem um pouco?
-Não senhor.
-Nem uma só vez?
-Não senhor.
O diretor ficou em silêncio. Cruzou as mãos atrás. O menino esperava, olhando para ele.(p.10)

Outro aspecto observado ainda no conto é a constante preocupação dos personagens com a opinião alheia, enquanto o diretor tenta a todo custo manter sua aparência de homem sério, o aluno parece ser convencido através do elogio do diretor:
“-Você foi sempre um menino muito sincero. Desde que você entrou para aqui, você foi um dos meninos que mais admirei; não só pela inteligência, mas também pela educação que você tem, e pela coragem de dizer sempre a verdade, mesmo quando isso possa ser pior para você(p.10)”
O conto também ilustra bem nossa afirmação inicial de que grande parte das histórias são contadas através do diálogo. No conto, a voz do narrador é quase que neutralizada, o que temos é um diálogo sinuoso entre diretor e o menino, diálogo este que nos permite entrar em contato direto com os personagens- seus caracteres, seus gestos, seu linguagem. Com isso, a história liberta da descrição feita pelo narrador ganha tantas versões quantas são as vozes envolvidos na leitura
Em “Aprendizado”, outro conto de Tarde da Noite nos chama atenção a preocupação com a opinião alheia de seu protagonista, algo comum na infância. A criança está constantemente através de pequenas mentiras escondendo sua identidade, sua classe social (quando esta é pobre), sua raça (quando teme discriminação), enfim está usando máscaras porque ainda não aprendeu a se aceitar. Na realidade, a atitude infantil revela bem a incapacidade da sociedade moderna de ver o diferente como igual. Assim, não se lutando pela igualdade através do reconhecimento da diferença, cria-se indivíduos discriminados e/ou discriminadores. Eduardo, principal personagem de “Aprendizado” ilustra bem nossas afirmações desse parágrafo. Nesse conto, Eduardo para não confessar para Jordão e Grilo que deseja chegar em casa o quanto antes para mostrar sua redação a seus pais, diz: “- Amanhã te mostro; estou com pressa agora, Mamãe pediu para eu chegar mais cedo hoje- ele mentiu. (p.27) .” A atitude de Eduardo ilustra bem a dificuldade de nos mostrarmos como somos, principalmente quando o outro com quem estamos “cara a cara” em muito difere de nós.
Jordão e Grilo parecem em muito diferirem de Eduardo, pela descrição bem como pelas ações dos dois personagens depreende-se que se trata de dois meninos sapecas, enquanto Eduardo parece ser um menino mais quieto, com talento para escrever. Justamente por essa diferença entre a personalidade de Eduardo e dos dois outros meninos de “Aprendizado” há essa dificuldade do personagem de confessar seus interesses, já que teme a hostilização do outro. O enredo mostrará que o temor não é sem motivo.
A exemplo do que ocorre em “ Um peixe” (como veremos melhor adiante), em “Aprendizado” temos a destruição de uma expectativa infantil, destruição esta causada pela própria incompreensão humana. Em “Aprendizado”, a expectativa de Eduardo de mostrar a seus pais a nota máxima obtida em uma redação é destruída pela violência de Jordão e Grilo que a rasgam sem motivos:

-Jordão rasgou a folha e tornou a rasgar e a rasgar.
-Fedaputa!- e Eduardo deu um murro com tanta força, que Jordão foi cair sentado no chão.
Na mesma hora foi agarrado por trás; tentou escapar, mas Grilo o segurava com força. E então viu Jordão se aproximando, com os punhos fechados:
- Você vai aprender agora.(p.30)

Como foi dito anteriormente, nos deteremos nesta análise na representação que é feita da infância nas obra. Por isso devemos observar que a infância em sua definição mais comum é a fase de crescimento do ser humano, é a fase da descoberta da vida e do mundo e consequentemente de todas as frustrações que advém dessa descoberta. Daí o título do conto “Aprendizado”, quase que estranho, porque quando pensamos aprendizado sempre tendemos a pensar em algo bom, no entanto, o aprendizado pode ser de algo considerado bom ou mau, mas somente será aprendizado se causar uma mudança relativamente permanente no comportamento e, que resulta de experiência ou prática, conforme se diz na Psicologia da Aprendizagem. Eduardo parece aprender/descobrir não algo bom, mas que presente na vida, faz parte do próprio ser humano: a mesquinhez, que já se revela na própria infância. A atitude quase de inocência de abrir sua pasta para mostrar aquela redação que agora concentrava toda felicidade e expectativa de um menino é retribuída com a destruição do objeto amado.
Como dissemos acima também no conto “Um peixe”, vemos a destruição da expectativa infantil. Temos um narrador em terceira pessoa, novamente uma criança como protagonista, criança esta que como ocorre com Eduardo em “Aprendizado” vê a destruição de sua expectativa que no caso se traduz em cuidar de uma traíra que pescada pelo próprio menino escapou da morte. Ao longo do conto, vai se construindo um apego do menino ao peixe: “No começo fora só curiosidade, mas depois foi bacana, ficou alegre quando viu a traíra bem viva de novo, correndo pela água, esperta. (p.38)”. O apego do menino é demonstrado ainda quando o menino mesmo estando sujo da pescaria vence a preocupação com a opinião alheia sobre si e vai comprar pão para a traíra.
No entanto, ao voltar da padaria, o menino se depara com a empregada que havia matado sua traíra, ou seja, sua expectativa, seu desejo mesmo que momentâneo de cuidar do peixe.
Como resolvemos atentar para a representação do infantil em nossa análise, há um outro conto merecedor de destaque, trata-se de “Menino”. Neste vemos o quanto a experiência infantil é menosprezada pelo adulto, este “detentor” do saber mostra-se insensível à experiência infantil e quase sempre tem uma postura autoritária, senão vejamos nas falas da mãe em que se ignora a experiência do menino de criar uma nova palavra. Nota-se também que o verbo no imperativo é uma constante, o que denuncia um discurso autoritário, mas, de fato, comum no trato das mães para com seus filhos, vejamos o trecho inicial do conto:
-Striknik!
-Quê que é isso?
-É uma palavra, eu que inventei.
-Inventou pra quê?
-Pra ter uma palavra que só eu sei e os outros não.
“Márcio, você está demorando, menino, anda, vem almoçar.”
-Você está com as mãos sujas, não te falei pra não comer assim? Levanta, vai lavar.
-Striknik!
-Quê que é isso? Pare de fazer esses barulhos bobos (p.90)

Já no trecho acima, que inicia o conto, vemos o quanto o discurso é autoritário, nele há pelo menos três ordens: “anda, vem almoçar;” “Levanta, vai lavar” e “Pare de fazer esses barulhos bobos”. Nesta última fala, percebemos aquilo que identificamos em outros contos a exemplo de “Aprendizado” e “Um peixe”: a destruição da expectativa. A palavra “Striknik”, invenção de um menino com o objetivo de ter uma palavra só sua, é chamada pela mãe de “barulho bobo”.
A incompreensão adulta em face das experiências infantis tem representação ainda na atitude do professor diante do menino que também demonstra autoritarismo, senão vejamos:

Silêncio e medo na sala.
-Você sabia que eu marquei esse ponto para casa?
-Sabia.
-Sabia?...
-Sabia sim senhor.
-Ah: sabia sim senhor; agora melhorou. E porque você não estudou?
-Eu estudei.
-Já disse que não tolero alunos mentirosos.
-Eu não estou mentindo.(p.92)

Apesar da atitude quase sempre autoritária do adulto em relação à criança, em momento algum vemos a idealização desta fase, a criança não é vista como uma criatura pura, imaculada, mas como já foi dito, simplesmente com um ser humano na fase de desenvolvimento, na fase da descoberta do mundo, daí suas ações irem, muitas vezes de encontro com o estabelecido, com o aceitável pela sociedade. O “striknik” do menino não é valorizado, não é entendido, mas é discriminado, é visto com um barulho bobo porque não faz parte do convencional, do estabelecido com normal e aceitável pela sociedade.
Enfim, da análise feita até então, podemos dizer que seja através de um diálogo sinuoso seja através da evidenciação das contradições que permeiam o mundo da descoberta da criança, como vimos nos contos analisados, em contraste com os valores estabelecidos pelo adulto, Luiz Vilela traz à tona as linhas de força que influenciam o homem moderno: um mundo descentrado, no qual o indivíduo solitário e incompreendido perdeu suas ilusões que dão sentido a vida e, diante dessa perda busca outras expectativa, não a encontrando, apela para a violência como em “Lembrança”, por exemplo; para o autoritarismo, como em “Menino”.


Referências:

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 2ªed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1975.
VILELA, Luiz. Tarde da Noite. 4ªed.:São Paulo: Ática, 1988.

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