segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

DOIS CONTOS, CINCO TELEFONEMAS, E MUITO DESESPERO... - Dayena Medeiros Lira

Conhecido e admirado internacionalmente, Moacyr Scliar pode ser considerado um orgulho para a nossa literatura moderna. Com um estilo bastante peculiar, sua obra abrange vários gêneros, como o romance, o conto, a crônica, o ensaio e a ficção juvenil. Dentre sua vasta produção, dois contos me chamam a atenção: “Contagem regressiva” e “Mensagens gravadas, quatro; bilhete, apenas um”, inseridos na obra Pai e filho, filho e Pai.
A obra em questão é composta por vinte e cinco contos curtos, em geral caracterizados por uma linguagem simples, que revelam casos do cotidiano. Neles são denunciadas algumas características humanas, em sua complexidade, como a paixão, insegurança, traição, ilusão, corrupção. A questão psicológica é bastante evidente na maioria dos textos, inclusive nos dois que me proponho a analisar, sobre os quais discorrerei a seguir.
“Contagem regressiva” narra um caso de um sujeito, que, por suas atitudes (insegurança, paixão incontrolável, exagero...), deve ser um adolescente que liga de um orelhão para uma moça, desesperado, a fim de que esta lhe confesse, de uma vez por todas, a grande verdade: se o ama, ou não. O conto é bastante curto, estruturado em um único parágrafo, e possui um ritmo bastante acelerado, marcado pela ausência total de pontos, e abundância de vírgulas. Este ritmo “ofegante” denuncia o desespero do rapaz, que, em apenas alguns poucos minutos, precisa obter a resposta esperada, já que só possui um cartão com oito “impulsos”, não tendo mais dinheiro para comprar outro:

Su, eu tenho de falar rápido porque estou ligando de um telefone público, este é o meu último cartão, não tenho dinheiro para comprar outro, só me restam oito impulsos e você sabe que nessas ligações de longa distância os impulsos se vão ligeirinho, olha aí, agora restam sete impulsos... (Scliar, 2002, p.55)

Outra marca lingüística que denuncia o desespero do protagonista é o exagero do uso do vocativo “Su”, que teria o objetivo de chamar a atenção da garota, o que Jacobson denomina de “função fática da linguagem”, que está centrada no contato com o interlocutor.
Moacyr Scliar se utiliza de bastante humor para denunciar a insegurança do rapaz, tão grande que ele não deixa que sua amada fale. A curta ligação só tem espaço para o seu desespero: ele repete que a ama, e quer saber se esta o ama, mandando que ela fale rápido, já que os “impulsos” estão acabando e esta resposta seria a coisa mais importante de sua vida (“Coisas” típicas de um adolescente apaixonado!). Porém, o rapaz não deixa que a “Su” se expresse, por que certamente tem medo de ouvir um “não”. A provável verdade é que a moça já tem outro namorado:

quem é esse cara aí do seu lado dizendo, vamos, vamos, eu não sei quem é esse cara, Su, mas explique para ele que essa conversa é importante, é a mais importante da minha vida, Su, agora são quatro impulsos, Su, não sei se o cartão vai agüentar... (op.cit., p.55).

O rapaz apaixonado, porém, não quer admitir para si mesmo a realidade que está bem explícita, já que a moça nunca quer responder à sua pergunta, mas sempre o “despista” discutindo sobre o conceito de amor. Além disso, sempre diz (desde quando eram crianças) que ele é como um irmão para ela, o que deixa claro que ela deu todas as pistas (as quais ele se nega a admitir) para que ele soubesse que, na verdade, o sentimento não é algo compartilhado por ambos. Embora a moça não fale nada (nem poderia, já que o rapaz não lhe dá espaço!), o discurso do protagonista denuncia que havia outro anterior àquele flagrado no conto. “Esboçando” o pensamento de Bakhtin, nenhum enunciado se constrói no vazio, mas todo ele se configura numa rede de enunciados anteriores. Certamente houve conversas anteriores àquela, e provavelmente o rapaz carrega em si interiorizado a noção de que as atitudes de sua amada revelam que ela não o ama, mas tem um carinho suficiente para não querer magoá-lo.
Por fim, ao término dos pulsos, o rapaz não obtém a resposta, e a ligação acaba com as seguintes palavras: “Su, eu tenho de saber, porque se você não me ama eu –.”, sugerindo uma ameaça do rapaz, que o autor deixa para o leitor imaginar qual seria: “se você não me ama eu vou me matar”, ou quem sabe “eu vou lutar até o fim pra te conquistar”; ou quem sabe ainda “eu nunca mais vou procurar você”. Várias podem ser as suposições do leitor, mas se o leitor ler um segundo conto do mesmo autor, “Mensagens gravadas, quatro; bilhete, apenas um”, certamente irá supor que a primeira opção (“eu vou me matar”) é a mais provável. Vejamos por quê.
O conto em questão compartilha de várias características com o anterior. Também trata de um telefonema (aliás, de quatro telefonemas!) em que uma mulher tenta (interditada pela secretária eletrônica) falar com um homem com quem provavelmente se relaciona, mas sem compromisso fixo. Ela tenta se retratar por tê-lo “colocado contra a parede”, exigindo uma decisão, coisa que ele detesta!
Assim como no conto anterior, percebemos que seu sentimento e o de Jorge (assim se chama o sujeito!) não deve ser compartilhado, ou pelo menos não deve ter a mesma intensidade. O texto nos dá várias pistas, através das palavras da mulher (“Chega de encontros ocasionais”; “poderíamos passar o domingo juntos (...) mas você prefere ficar em casa lendo ou ouvindo música”; “prometo que não vou mais tentar prender você”...). Como em “Contagem regressiva”, só um personagem fala (a diferença é que, desta vez, é uma mulher, e para a secretária eletrônica), mas o seu discurso denuncia o discurso do homem: certamente ele não quer firmar um compromisso, gosta de viver livre e ela submete-se à situação por medo de perdê-lo. Também percebemos, nas “entrelinhas” do discurso da mulher, que ele mente para ela, já que diz passar todos os domingos em casa, mas não está lá para atender a nenhuma ligação, estando a secretária eletrônica quebrada (o que só descobrimos no final!).
Outro ponto comum entre os dois contos é o excesso de vocativos (neste caso, “Jorge”), revelando sua insegurança e insistência em querer que o amado atenda sua ligação (já que acredita que o mesmo está a escutando e negando-se a atendê-la). Ao longo das quatro ligações, percebe-se que a mulher está cada vez mais desesperada, o que é mostrado tanto através de suas palavras quanto do ritmo acelerado com que fala, principalmente nos dois últimos telefonemas (velocidade percebida pela escassez de pontuação). Sua insegurança difere da do primeiro adolescente analisado, o qual já está desesperado desde o início. A mulher, porém, fixa a idéia de que Jorge não quer atendê-la, estando apenas escutando tudo o que está falando, o que aumenta cada vez mais sua agonia, supondo o real e definitivo rompimento do “relacionamento”.
No final do conto, e no último telefonema, ela sugere que se ele não responder alguma coisa ela irá se jogar pela janela, cometendo suicídio, fato que, quando contrapomos com o outro conto, nos faz supor que o rapaz também está sugerindo o mesmo. O tempo da mensagem encerra, e o leitor também não sabe o que ocorreu: se ela cumpriu o que falou, ou se foi apenas uma ameaça, a fim de receber a atenção do amado. Só depois descobrimos que o rapaz não ouviu os recados, já que a secretária eletrônica estava quebrada. A descoberta se dá através de um único bilhete:

Prezado Martins, passei aqui em sua oficina, você não estava, então estou deixando a secretária eletrônica para você consertar. (...)Tem várias mensagens gravadas, mas não consigo escutar nenhuma... (Sclyar, 2002, p.51)

Percebemos, nos dois contos, o exagero da paixão de ambos os protagonistas, paixões estas que ficam “mal resolvidas”. Casos de paixões exageradas são bastante freqüentes na obra, como vemos também em “A amante” (que narra um caso de uma esposa desesperada por achar que seu marido está com outra, quando, na verdade, este não tem uma amante), e ainda em “Paixões orais” (conto no qual um adolescente se apaixona por sua dentista e nutre a expectativa de um romance – nunca consumado – com a mesma). O ponto comum de toda obra, porém, não é a temática em questão, mas a peculiaridade de como o autor constrói seu texto, de modo tão inteligente e surpreendente, deixando tão clara a impressão que tem de fatos tão simples, tão corriqueiros, como “paixões mal-resolvidas”.


Referências:

SANTOS, Kleber José Clemente dos. O balé dos canibais: leitura de contos de Moacyr Scliar e vivência em sala de aula. 2007. 95 f. Dissertação (Mestrado em Linguagem e Ensino) – Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande, 2007.

SCLYAR, Moacyr. Pai e filho, filho e pai e outros contos escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2002. (Coleção L&PM Pocket).

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