Rubem Fonseca é romancista e roteirista e considerado por Alfredo Bosi o precursor da corrente literária contemporânea denominada brutalista. O referido autor escreveu vários livros, marcados sobretudo pelo tom policialesco e pela presença gritante da oralidade, como, por exemplo, Bufo & Spallanzani, publicado em 1986, o qual passaremos a tratar no presente, analisando mormente a presença da metalinguagem na narrativa.
A função metalinguística ocorre quando o código, isto é, a língua portuguesa, é posto em destaque. O prefixo meta remete à etimologia grega, e significa “mudança”, “posteridade”, “além”, “transcendência”, “reflexão”, “crítica sobre” (CHALHUB, 1998). A metalinguagem é, portanto, a reflexão que o código faz da própria linguagem.
Ocorre, por exemplo, quando um filme tematiza o próprio cinema ou quando a televisão debate o papel social da televisão ou um poema que reflete a criação poética.
Hodiernamente, a função metalingüística tem sido revelada por vários poetas e romancistas, a exemplo do próprio Rubem Fonseca, em Bufo & Spallanzani (1991). As questões metalingüísticas expostas em tal obra, por sua vez, não distanciam o leitor do foco narrativo propriamente dito.
Bufo & Spallanzani é um romance policial que nos remete a história do homicídio da socialite Delfina Delamare, no Rio de Janeiro. À principio, Guedes, investigador de polícia, pensou que havia sido um suicídio, haja vista que dias antes a socialite tomou conhecimento que sofria de uma leucemia fulminante, em virtude da qual restavam-lhe poucos meses de vida, porém a perícia atestou a ausência de pólvora nas mãos de Delamare, o que indicou a ocorrência de homicídio.
Diante das circunstâncias, Guedes passou a apurar a morte da socialite. Em um primeiro momento, foi ao encontro de Gustavo Flávio, escritor renomado e narrador do romance, que havia dado um de seus livros a Delamare com dedicatória e que estava no porta-luvas do carro no momento do crime, e que posteriormente, descobriu-se que mantinha um relacionamento de vários meses com a socialite.
Em outro momento, Guedes foi ouvir Eugênio Delamare, homem influente da sociedade carioca, esposo de Delfina, o qual tentou a todo custo, evitar que a morte desta fosse um escândalo, tendo inclusive tentado subornar o investigador e que chegou a contratar um bandido para que este assumisse a tentativa de assalto e homicídio de sua esposa.
Embora esse seja o enredo, o foco principal de toda a narração, um aspecto que pode ser discutido e destacado ao longo do texto, mesmo sendo secundário, é a presença marcante da metalinguagem, verificada principalmente nas discussões a respeito da arte de escrever bem como citações de e sobre outros autores e livros.
Interessante notar que embora não seja a matéria principal da narrativa, a metalinguagem aparece como um coadjuvante de grande destaque e que não distancia o leitor da obra, pelo contrário, as discussões a respeito do escrever se encontram tão encaixadas e entrelaçadas com o enredo que desperta no leitor a reflexão do “fazer artístico”, da inspiração para escrita. É o que podemos perceber, nos seguintes trechos, ditos pelo próprio Gustavo Flávio, narrador-personagem da obra em:
Sei que a inspiração existe, qualquer puta velha como eu que já escreveu mais de vinte livros, em pouco mais de dez anos, sabe que o nosso trabalho é braçal, exige força física, viço. (p. 49).
Aliás, escrever estava se tornando um tripalium (ver dicionário latim), um sofrimento (de repente, imaginei-me sofrendo da síndrome de Virgínia Woolf e tremi de medo);(p. 150)
Escrever é uma questão de paciência e resistência, algo parecido como disputar uma maratona onde há que correr mas não se pode ter pressa. (Não gostei do símile logo que o disse. Odeio esportes.) (p. 152)
Ali estava eu, sofrendo aquelas reminiscências que teoricamente poderiam funcionar como terapia se colocadas no papel, mas escrever não é nenhuma cura, ao contrário, distorce a nossa psique (ver Braine). Quando escrever faz bem, alguma coisa faz mal à nossa literatura. Escrever é uma experiência penosa, desgastante, é por isso que existem entre nós, escritores, tantos alcoólatras, drogados, suicidas, misantropos, fugitivos, loucos, infelizes, mortos-jovens e velhos gagás. (p. 159)
Nos trechos supracitados, percebe-se a energia que se exige do escritor no ato de escrever, isto é, é uma atividade que requer bastante esforço, é árduo.
Há também discussões acerca da figura do escritor, como ele é ou deve ser, e como sua linguagem se revela:
O escritor deve ser essencialmente um subversivo e a sua linguagem não pode ser nem a mistificatória do político (e do educador), nem a repressiva, do governante. A nossa linguagem deve ser a do não-conformismo, da não-falsidade, da não-opressão. Não queremos dar ordem ao caos, como supõem alguns teóricos. E nem mesmo tornar o caos compreensível. Duvidamos de tudo sempre, inclusive da lógica. Escritor tem que ser cético. (p. 119)
A poesia, a arte enfim, transcende os critérios de utilidade e nocividade, até mesmo o da compreensibilidade. Toda linguagem muito inteligível é mentirosa. (p. 119)
Quanto melhor o escritor, mais pernóstico, digo, prognóstico, ele é. (p. 209)
O sujeito só pode ser considerado um bom escritor quando consegue, primeiro, escrever sem inspiração e, segundo, escrever só com a imaginação. (p. 222)
Por outro lado, Gustavo Flávio, pressionado pela editora que cobra dele livros comerciais, isto é, que mantenha a regularidade de vendas dos anteriores, em vários momentos da obra se questiona ou é questionado acerca da necessidade dos seus leitores e da própria editora, senão vejamos:
A coisa mais difícil para o escritor é dar o que o leitor quer, pela razão muito simples de que o leitor não sabe o que quer, sabe o que não quer, como todo mundo; e o que ele não quer, de fato, são coisas muito novas, diferentes do que está acostumado a consumir. Poder-se-ia dizer que, se o leitor sabe que não quer o novo, sabe, contrario sensu, que quer, sim, o velho, o conhecido, que lhe permite fruir, menos ansiosamente, o texto. (p. 137)
A função metalinguística ocorre quando o código, isto é, a língua portuguesa, é posto em destaque. O prefixo meta remete à etimologia grega, e significa “mudança”, “posteridade”, “além”, “transcendência”, “reflexão”, “crítica sobre” (CHALHUB, 1998). A metalinguagem é, portanto, a reflexão que o código faz da própria linguagem.
Ocorre, por exemplo, quando um filme tematiza o próprio cinema ou quando a televisão debate o papel social da televisão ou um poema que reflete a criação poética.
Hodiernamente, a função metalingüística tem sido revelada por vários poetas e romancistas, a exemplo do próprio Rubem Fonseca, em Bufo & Spallanzani (1991). As questões metalingüísticas expostas em tal obra, por sua vez, não distanciam o leitor do foco narrativo propriamente dito.
Bufo & Spallanzani é um romance policial que nos remete a história do homicídio da socialite Delfina Delamare, no Rio de Janeiro. À principio, Guedes, investigador de polícia, pensou que havia sido um suicídio, haja vista que dias antes a socialite tomou conhecimento que sofria de uma leucemia fulminante, em virtude da qual restavam-lhe poucos meses de vida, porém a perícia atestou a ausência de pólvora nas mãos de Delamare, o que indicou a ocorrência de homicídio.
Diante das circunstâncias, Guedes passou a apurar a morte da socialite. Em um primeiro momento, foi ao encontro de Gustavo Flávio, escritor renomado e narrador do romance, que havia dado um de seus livros a Delamare com dedicatória e que estava no porta-luvas do carro no momento do crime, e que posteriormente, descobriu-se que mantinha um relacionamento de vários meses com a socialite.
Em outro momento, Guedes foi ouvir Eugênio Delamare, homem influente da sociedade carioca, esposo de Delfina, o qual tentou a todo custo, evitar que a morte desta fosse um escândalo, tendo inclusive tentado subornar o investigador e que chegou a contratar um bandido para que este assumisse a tentativa de assalto e homicídio de sua esposa.
Embora esse seja o enredo, o foco principal de toda a narração, um aspecto que pode ser discutido e destacado ao longo do texto, mesmo sendo secundário, é a presença marcante da metalinguagem, verificada principalmente nas discussões a respeito da arte de escrever bem como citações de e sobre outros autores e livros.
Interessante notar que embora não seja a matéria principal da narrativa, a metalinguagem aparece como um coadjuvante de grande destaque e que não distancia o leitor da obra, pelo contrário, as discussões a respeito do escrever se encontram tão encaixadas e entrelaçadas com o enredo que desperta no leitor a reflexão do “fazer artístico”, da inspiração para escrita. É o que podemos perceber, nos seguintes trechos, ditos pelo próprio Gustavo Flávio, narrador-personagem da obra em:
Sei que a inspiração existe, qualquer puta velha como eu que já escreveu mais de vinte livros, em pouco mais de dez anos, sabe que o nosso trabalho é braçal, exige força física, viço. (p. 49).
Aliás, escrever estava se tornando um tripalium (ver dicionário latim), um sofrimento (de repente, imaginei-me sofrendo da síndrome de Virgínia Woolf e tremi de medo);(p. 150)
Escrever é uma questão de paciência e resistência, algo parecido como disputar uma maratona onde há que correr mas não se pode ter pressa. (Não gostei do símile logo que o disse. Odeio esportes.) (p. 152)
Ali estava eu, sofrendo aquelas reminiscências que teoricamente poderiam funcionar como terapia se colocadas no papel, mas escrever não é nenhuma cura, ao contrário, distorce a nossa psique (ver Braine). Quando escrever faz bem, alguma coisa faz mal à nossa literatura. Escrever é uma experiência penosa, desgastante, é por isso que existem entre nós, escritores, tantos alcoólatras, drogados, suicidas, misantropos, fugitivos, loucos, infelizes, mortos-jovens e velhos gagás. (p. 159)
Nos trechos supracitados, percebe-se a energia que se exige do escritor no ato de escrever, isto é, é uma atividade que requer bastante esforço, é árduo.
Há também discussões acerca da figura do escritor, como ele é ou deve ser, e como sua linguagem se revela:
O escritor deve ser essencialmente um subversivo e a sua linguagem não pode ser nem a mistificatória do político (e do educador), nem a repressiva, do governante. A nossa linguagem deve ser a do não-conformismo, da não-falsidade, da não-opressão. Não queremos dar ordem ao caos, como supõem alguns teóricos. E nem mesmo tornar o caos compreensível. Duvidamos de tudo sempre, inclusive da lógica. Escritor tem que ser cético. (p. 119)
A poesia, a arte enfim, transcende os critérios de utilidade e nocividade, até mesmo o da compreensibilidade. Toda linguagem muito inteligível é mentirosa. (p. 119)
Quanto melhor o escritor, mais pernóstico, digo, prognóstico, ele é. (p. 209)
O sujeito só pode ser considerado um bom escritor quando consegue, primeiro, escrever sem inspiração e, segundo, escrever só com a imaginação. (p. 222)
Por outro lado, Gustavo Flávio, pressionado pela editora que cobra dele livros comerciais, isto é, que mantenha a regularidade de vendas dos anteriores, em vários momentos da obra se questiona ou é questionado acerca da necessidade dos seus leitores e da própria editora, senão vejamos:
A coisa mais difícil para o escritor é dar o que o leitor quer, pela razão muito simples de que o leitor não sabe o que quer, sabe o que não quer, como todo mundo; e o que ele não quer, de fato, são coisas muito novas, diferentes do que está acostumado a consumir. Poder-se-ia dizer que, se o leitor sabe que não quer o novo, sabe, contrario sensu, que quer, sim, o velho, o conhecido, que lhe permite fruir, menos ansiosamente, o texto. (p. 137)
“O negócio então é vender?”, disse Orion.
“O escritor é vítima de muitas maldições”, eu disse, “mas a pior de todas é ter de ser lido. Pior ainda, ser comprado. Ter de conciliar sua independência com o processo da sua consumação. Kafka é bom porque não escrevia para ser lido. Mas por outro lado Shakespeare é bom porque escrevia de olho no shilling que cobrava de cada espectador (ver Panofsky). Assim como o teatro não se salvará apenas com a coragem de escrever peças que ninguém queira assistir, a literatura também não se salvará apenas com a coragem de escrever outros Finnegans wake".
Os culpados da atual decadência da literatura — você concorda que a literatura está decadente, não concorda? — são os próprios escritores”, disse Orion.
“É. Não se fazem mais escritores como antigamente”, Ironizei. (p. 141)
Há no trecho acima, clara crítica ao caráter comercial que muitos escritores, dadas as circunstâncias, necessidades do público-leitor e pressões da editora, são forçados a assumir.
Também verificamos uma passagem sobre o processo de organizar um livro:
Diga-se de passagem que iniciar um livro não é mais difícil do que terminá-lo, conforme pretendem alguns, alegando que é preferível desapontar o leitor no fim do que fazê-lo desistir da leitura no princípio. (p. 206)
Assim, analisando-se a obra de Fonseca, fácil é perceber que embora a metalinguagem se revele de forma secundária no Bufo & Spallanzani, concretizada pelas várias passagens em que Gustavo Flávio, narrador-personagem faz menções a livros e citações, bem como teoriza sobre a arte de escrever, sobre a escrita propriamente dita e também acerca do mercado de livros, verifica-se que o leitor não se distancia em nenhum momento da obra, uma vez que a metalinguagem se encontra entrelaçada de forma bastante natural, o que chama muita atenção do leitor e enriquece bastante a narrativa.
Referências:
FONSECA, Rubem. Bufo & Spallanzani. 24. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
CHALHUB, Samira. A metalinguagem. 2. ed. São Paulo: Ática, 1988 (Série Princípios).
http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/r00004.htm (Acesso em 09/02/2009)
Nenhum comentário:
Postar um comentário