quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A PROBLEMÁTICA HUMANA E SOCIAL EM "ELES NÃO USAM BLACK-TIE"- Claudeci da Silva Ribeiro

Um galo sozinho não tece uma manhã:
Ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


(NETO. J. C. Melo. Tecendo a manhã).

Este artigo apresenta a problemática humana e social encontrada no texto Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, encenado pela primeira vez em 1958 no Teatro de Arena de São Paulo. O texto apresenta um grupo de trabalhadores que lutam por melhores salários através da greve. A peça é ambientada em uma favela carioca e é apresentada em três atos e seis quadros. A tensão vai crescendo de ato para ato, No primeiro ato temos a apresentação dos personagens Otávio, Tião, Romana, Maria, Chiquinho, Terezinha, Jesuíno, Dalva e Bráulio e termina com a festa de noivado; o segundo ato tem um feitio mais intimista, com os personagens deixando aparecer um pouco mais de si mesmas, como atuam e reagem às condições impostas pelo meio social em que vivem e o terceiro ato é apresentado com mais intensidade de ações para culminar com um desfecho dramático.
A greve e as condições de vida dos operários do morro são discutidas no núcleo familiar de Otávio e Romana. Otávio e seu filho Tião são operários de uma fábrica, o pai é um idealista e já participou de outros movimentos grevistas, tendo sido até preso; Tião foi criado pelos padrinhos, morando na cidade, longe do morro. Tião, hoje adulto e morando com os pais no morro vive um grande conflito interior, primeiro por não acreditar na greve e, além disso, ele está preocupado com o seu futuro e com o de Maria, sua namorada, que está esperando um filho seu.
Eles não usam black-tie é um texto político social em que Guarnieri utilizou-se de gente humilde, trabalhadores comuns para conduzir sua história. Chiquinho, Terezinha, Dalvinha e Jesuíno são personagens que revelam um mundo alegre vivido na favela, por outro lado, o texto apresenta personagens atormentados por seus conflitos, provocando o riso como a dor, alegria e tristeza, que são: Otávio, Romana, Tião, Maria e Bráulio.
Quando a greve é deflagrada, de um lado temos o militante Otávio, defensor e articulador da greve, e do outro lado o jovem Tião, que fura a greve, preocupado apenas com o seu progresso e o de sua futura mulher e filhos. O desfecho da peça é dramático, pois a família está comemorando a volta de Otávio para casa e as conquistas da greve, enquanto Tião é expulso de casa pelo pai e do morro, pois traiu a confiança de todos e nem Maria o acompanha.
A ação se encerra com a denuncia da apropriação da criação musical do Juvêncio, mulato morador do morro. Seu samba apareceu em vários momentos da peça, mas é ouvido tocando no rádio com autoria de outro.
Segundo Maciel, o texto de Gianfrancesco Guarnieri, um militante do PCB (Partido Militar Brasileiro) “já refletia um perfeito entendimento acerca da condição do Brasil enquanto país capitalista, e de todos os problemas e consequências decorrentes da implementação do capitalismo tardiamente. Essa peça, dirigida por José Renato, reflete a força que o sindicato ganhou a partir da década de 1930, destacando a importância do fortalecimento da consciência operária e assimilando o sindicato com a militância partidária”. A peça reflete a força a força sindical com a greve e traz o drama da classe operária brasileira num momento de crescimento industrial e urbano. O drama se desenvolve a partir do choque entre pai e filho com posições ideológicas e morais completamente opostas e divergentes.
O conflito de gerações se coloca de maneira diversa, temos o pai que é fiel ao meio de origem e com garra procura enfrentar os problemas cotidianos; temos o filho Tião, que fora entregue aos padrinhos e tendo servido de pajem, se tornou um alienado da vida do morro e toma a decisão que a comunidade condena, é favorável à greve; Romana aparece como conciliadora , intermediando a relação conflituosa entre pai e filho.

- OTÁVIO: ... Eu acho graça desses caras, contrariam a lei numa porção
de coisas.
Na hora de pagar o aumento querem se apóia na lei. Vai se
preparando, Tião.
Num dou duas semanas e vai estoura uma bruta greve que eles
vão vê se paga ou não... se não pagá, greve... Assim é que é...
- TIÃO: O senhor parece que tem gosto em prepara greve, pai.
- OTÁVIO: Eu tenho, tenho mesmo! Tu pensa o quê? Não tem outro jeito,
não! É preciso mostrar pra eles que nós tamo organizado. Ou
tu pensa que o negócio se resolve só com comissão. Com
comissão eles não diminui o lucro deles nem um tostão!
Operário que se dane. Barriga cheia deles é o que importa.
(p.29)

Notamos logo no início do texto o gosto pela causa por parte de Otávio e a descrença por parte do filho, já que este se deixou moldar pelas circunstâncias do meio em que viveu na cidade, iludido pela ânsia de melhorar de vida e usufruir de uma existência perfeita longe da favela, ele trai a confiança dos amigos e da família ao furar o movimento grevista e sozinho, pois seu amigo Bráulio aderiu à greve.

- BRÁULIO: De tu eu não esperava isso, Tião! (...)
Não, velho, pra isso não tem desculpa. Tu traiu a gente
e isso não tem desculpa.
- TIÃO: Cada um resolve seus galhos como pode! O meu, eu ressolvi desse
jeito.
Eu não podia arrisca! (p.99)

Destacamos também um aspecto social importante no texto que são os diálogos que representam a realidade dos personagens. Através da expressão da linguagem, percebemos que a peça retrata a fala das camadas mais pobres da região urbana por expressarem citações como: “pera aí, deixa eu acalma o ar!”(p.55); “Mas não tô... o que passo, passo”! (p.59); “Pruquê tu não contou a seu Álvaro o que aconteceu com as coisas?” (...) Arguns! Tavam no boteco de seu Antonio” (p. 89); notamos também a presença de expressões típicas da fala de outras regiões, como “bacuri”, apurrinhá e me adiscupe” que revelam a presença de possíveis imigrantes vindos das regiões Norte e Nordeste para o Sudeste, em busca de melhores condições de vida.
Ao ler esse texto, percebemos aspectos relevantes comparados com o poema de João Cabral de Melo Neto, assim como um galo sozinho não tece uma manhã, um operário sozinho não tecerá as condições para usufruir de seus direitos. È o que acontece com Tião, por não ter se adaptado à vida simples do morro e por não atender ao interesse coletivo, se vê sozinho em seu egoísmo e é coagido pelo pai á deixar a favela, e nem mesmo Maria, sua noiva, o acompanha.
O texto revela a luta de classes (Burguesia X Proletariado), do lado dos operários temos, antes de tudo, uma luta humana, tendo em vista o benefício coletivo por melhores condições de trabalho e de salário e través do direito de fazer greve, estes operários conseguiram tecer seus objetivos e concretizá-los. Pelo lado burguês, tivemos a intimidação com prisão de pessoas influentes à greve como forma de coagir os demais operários a desistir, mas diante da pressão feita pelos operários, os patrões tiveram que ceder. Por outro lado o texto também apresenta um flagrante de direitos autorais no caso da música do Juvêncio, “Nós não usa Black-tie”, que aparece sendo tocada no rádio com o nome de outro autor, vindo a configurar a superioridade de uma burguesia mesquinha que não valoriza os talentos surgidos em classes “pobres” nem lhes dá oportunidade para divulgar seu trabalho nos grandes meios de comunicação.
Contudo, sabemos que o texto Eles não usam black-Tie reflete os contratempos vividos por pessoas de um cotidiano humilde, cheio de “altos e baixos”, que são pessoas livres, sem vínculos partidários, mas que lutam pelo direito de uma classe, a operária.


BIBLIOGRAFIA
GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles não usam black-tie. Civilização Brasileira. 6ª ed., 1989.
MACIEL, Diógenes A. Vieira. Ensaios do Nacional-Popular no Teatro Brasileiro Moderno. João Pessoa. Ed. Universitária. 2004, p. 81-90
MASSAUD, Móises. A criação literária Prosa. São Paulo. Melhoramentos. 1979, p. 259-279.
NETO. João Cabral de Melo. A educação pela pedra. Alfaguara Objetiva. 2008

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