domingo, 8 de fevereiro de 2009

UMA LEITURA DE “O VAMPIRO DE CURITIBA" DE DALTON TREVISAN - Nayara Araujo Duarte

A obra O vampiro de Curitiba foi publicada no ano de 1965 e é uma das obras muito conhecidas desse autor que é um ícone no que diz respeito ao gênero conto da literatura brasileira. Segundo a biografia de Trevisan, o título dessa obra também foi o apelido dado ao autor por ser muito recatado e não gostar de entrevistas e exposições em meios de comunicação.
O vampiro de Curitiba é uma obra composta por quinze contos, todos tendo como protagonista o jovem Nelsinho em uma trajetória de busca pelas ruas de Curitiba à procura de satisfazer os seus desejos carnais. Cada conto possui um episódio isolado desta trajetória e não em ordem cronológica, mas todos traçam a mesma linha da personalidade do jovem: a sua obsessão pelo sexo e, independente da vítima, o que ele deseja é satisfazer-se. Desta forma, a sua procura por mulheres vai desde a menina virgem e pura à velha viúva, passando pela professora e por qualquer fêmea que cruzar o seu caminho.
Os contos são breves relatos das experiências sexuais do jovem, cada um com uma mulher diferente. Segundo Moisés (1987), uma das características do conto é a objetividade, ou seja, não se detém aos “pormenores secundários”, o que fica explícito na obra mencionada já que os detalhes dessas experiências são limitados ao erotismo e às sensações do protagonista nas cenas em que Nelsinho encontra sua vítima.
O autor traz a figura do vampiro para dentro de várias de suas obras e não faz diferente com O vampiro de Curitiba. Na verdade, segundo Zanchet (2007), esta obra é uma remissão paródica aos contos anteriormente publicados pelo autor e que possuem uma temática semelhante. A relação aqui existente entre Nelsinho e suas parceiras é a de vítima e de predador, já que o protagonista, intitulado também por herói, de forma neurótica e puramente instintiva, está sempre à procura de uma vítima que possa satisfazer seus anseios.
É interessante perceber a construção que o autor faz do nome do personagem principal, um nome no diminutivo e que traz consigo uma carga ingênua e infantil. No entanto, já no primeiro conto essa expectativa é totalmente quebrada com os traços psicológicos de Nelsinho, em relação ao sexo, sugeridos ao longo da narrativa e essa quebra de expectativa só vem se confirmar com as outras narrativas dos contos que se seguem.
A presença exaustiva das características psicológicas que remetem ao sexo desenfreado e a um instinto quase animalesco traz a presença do erotismo muito forte nas descrições presentes nos contos. É bem verdade que os contos são narrativas muito sucintas, entretanto o autor demonstra privilegiar os detalhes das cenas em que Nelsinho sacia os seus desejos, acentuando ainda mais a neurose do personagem.
A presença do erotismo é uma marca frequente em todos os contos e por diversas vezes em cada um deles, entretanto só para exemplificação vale citarmos três momentos de sua ocorrência. No conto Incidente na loja temos a presença do erotismo no trecho “Na terceira vez a menina retribuiu, ainda de boca fechada – ele sopesava na palma um dos seios, precioso e frágil ovo quente no ninho.” (p.20); no conto Contos dos bosques de Curitiba, “Pousou a mão no peitinho. Ele se encolheu.” (p. 27) e ainda em Na pontinha da orelha, “Mão frenética nas prendas deliciosas, encontrou a lasca da saia, libertou o único botão. Aos poucos a saia preta devassava a calcinha rósea. Um passo atrás, a saia deslizou ao pé da moça: Neuza ai, Neuza! Cheia de aflição, gemeu baixinho...” (p. 53).
Como vimos nos contos da obra O vampiro de Curitiba o autor une as características do personagem Nelsinho associado a um vampiro que vê uma presa em cada fêmea que se apresente na sua frente, ao erotismo presente nos seus desejos em relação às mulheres. Outra característica que enfatiza ainda mais os traços eróticos que circulam por cada trama é a linguagem imposta que é quase sempre vulgar, principalmente nos momentos em que o protagonista se envolve com a sua vítima e a forma animalesca como ele se refere a cada mulher. Essa linguagem aparece de diferentes formas nos contos: ora pelo uso de metáforas e comparações, como podemos observar no exemplo dado anteriormente, mas especificamente através da expressão “ele sopesava na palma um dos seios, precioso e frágil ovo quente no ninho.” (p.20); ora por termos diretos e que de fato demonstrem essa vulgaridade. No último conto, nos momentos finais, percebemos essa linguagem vulgar se misturar e acentuar o erotismo da cena. “Corria a unha na espinha, ele se retorcia inteiro. Pastava-lhe o pescoço, lambia o mamilo, com sopro e relincho.” (p.106). Ainda neste conto percebemos mais claramente o caráter quase doentio que o protagonista assume, pois se ele mesmo procura suas vítimas com o intuito de saciar os seus desejos por sexo, no final deste conto ele demonstra um arrependimento por se colocar em tal situação que se compara até a um animal.

Referências bibliográficas
MOISÉS, Massaud. A criação literária – prosa. São Paulo: Ed. Cultrix, 1987, p.19-33.
TREVISAN, Dalton. O vampiro de Curitiba. 20 ed. Rio de Janeiro/ São Paulo: Ed. Record, 1998.
ZANCHET, Maria Beatriz. Dalton Trevisan e a demolição dos mitos. IN FORTES, Rita Felix e ZANCHET, Maria Beatriz. Sabor e saber: o lugar do conto na escola. Foz do Iguaçu, Ed. Parque, 2007.

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/o_vampiro_de_curitiba , acessado em 30/01/2009.

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