quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

“O EDIFÍCIO” E A HISTÓRIA BÍBLICA SOBRE A TORRE DE BABEL: UMA LEITURA COMPARATIVA - Elisângella Oliveira Silva

O presente trabalho foi desenvolvido no decurso do período 2008.2, na Universidade Federal de Campina Grande, como uma das atividades de estágio da disciplina Literatura Brasileira V, ministrada pelo professor Hélder Pinheiro, que buscou desenvolver um trabalho de leitura crítica e analítica acerca do conteúdo alvo da disciplina: a literatura brasileira produzida depois de 1940.
Sob a âncora dos livros indicados para a realização da atividade do terceiro estágio, selecionei o livro intitulado O pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião. A obra é uma coletânea de 08 contos – “O pirotécnico Zacarias”; “Teleco, o coelhinho”; “Bárbara”; “O edifício”; “A flor de vidro”; “A cidade”; “O ex-mágico da Taberna Minhota” e “Os dragões” – os quais exemplificam produções que se enquadram no realismo fantástico da literatura brasileira. E é em torno desta característica que se justifica o presente estudo, demonstrando o fascínio que os contos exercem sobre o leitor, o qual se sente atraído pelas situações das mais inusitadas, presente em cada uma das narrativas, bem como pela verossimilhança do enredo.
Quanto à estruturação dos contos, pode-se afirmar que eles não fogem à regra geral do gênero, apresentando número reduzido de personagens e a condensação dos elementos tempo, espaço e conflito. O diferencial das narrativas contidas na obra está no caráter fantástico que os caracteriza. Neste sentido, vale salientar a construção muito bem elaborada das histórias, as quais envolvem, na maioria das vezes, personagens situadas no âmbito da fantasia, mas que, através da lógica interna do enredo – verossimilhança – o conflito progride e os fatos são narrados como se tivessem realmente existido. Desta forma, o impossível ganha vida e coexiste com os personagens humanos, conforme se pode notar em alguns contos de destaque. A título de exemplificação, podemos citar alguns textos como: “Bárbara”, em que a personagem feminina engorda a cada conquista dos objetos pedidos ou desejados por ela; “O ex-mágico da Taberna Minhota”, cujo protagonista narra o seu desejo de se livrar dos seus dotes de mágico, e como meio para conseguir tal fim opta por seguir a carreira pública como Secretário de Estado, escolha que o torna ainda mais angustiado e arrependido; e, para finalizar, há também o conto “A cidade”, que conta a história de um personagem que não conseguiu viajar pela estação onde era o único passageiro e que findou indo parar em uma cidade onde fora encarado como suspeito, sendo assim encarcerado até que um possível ou verdadeiro criminoso aparecesse.
Sem deixar de reconhecer a qualidade e a diversidade de contos escritos por Murilo Rubião, escolhi, para a realização deste trabalho, o conto intitulado “O edifício”, escolha esta que fora justificada pelo diálogo intertextual entre este e o texto bíblico presente no livro de Gênesis – capítulo 11 e versículos de 1 a 9, onde se encontra a história acerca da construção da cidade chamada Babel e de sua torre. Com relação ao objetivo do trabalho, este consiste em fazer uma leitura comparativa tendo em vista a relação dialógica que os textos apresentam entre si.
Antes de trabalhar o aspecto intertextual das narrativas, é importante tecer algumas considerações gerais sobre o conto. Sendo assim, é possível verificar que este se estrutura em 10 tópicos, contendo também uma pequena nota introdutória, por meio do qual o narrador – em 3ª pessoa – conta que após o término da construção do alicerce, o Conselho Superior da Fundação contratou uma nova remessa de funcionários com o objetivo de dar continuidade à obra.
João Gaspar é o personagem que exerce a função de engenheiro, sendo responsável pela progressão do edifício. E antes de pôr em prática o seu trabalho, deveria observar algumas normas e não ter a pretensão de concluir a construção, pois seria preciso ter em foco a ausência limites do “arranha-céu” e, por outro lado, as limitações da vida humana. Portanto, havia lugar apenas para trabalho, não para os pretensiosos.
Um episódio marcante da história diz respeito ao desentendimento entre os operários durante a comemoração da chegada ao 800º pavimento. Segundo a narrativa, tal desentendimento fez com que se cumprisse uma antiga predição, fato que abalou, mas não pôs fim à continuidade da obra.
Passados alguns anos, os conselheiros faleceram e João Gaspar ficou sem superiores bem como sem as orientações necessárias. Em busca de um direcionamento adequado, o engenheiro recorreu a documentos e arquivos, encontrando apenas uma mensagem à margem de livros, plantas e relatórios com a seguinte mensagem: “É preciso evitar-se a confusão. Ela virá ao cabo do octingentésimo andar” (p.: 40). Ele tentou convencer os operários a pararem as obras, alegando como motivo a dissolução do Conselho, mas acabou sendo acatado como chefe. Quanto aos operários, estes se propuseram a trabalhar todos os dias da semana e desta forma desconsideraram os esforços do engenheiro em fazê-los abandonar o serviço.
O desfecho do conto pressupõe o fato de que a história não termina, pois a obra é infinita, de limites não explicitados na narrativa, e é justamente nessa característica que reside o caráter fantástico do conto.
Diante dessa visão geral do texto “O edifício”, percebe-se alguns aspectos semelhantes entre este e a história bíblica sobre a torre de Babel, tais como: a grandiosidade da construção e a sensação de poder ao estar à frente de uma obra tão pretensiosa.
Levando em conta o primeiro aspecto semelhante entre os textos, faz-se necessário fazer um pequeno esclarecimento. Na história bíblica, as finalidades de se construir uma cidade e uma torre que chegaria até o céu são explicitadas na narrativa, conforme se pode apreender através do trecho a seguir: “Vamos construir uma cidade e uma torre que chegue até o céu, para ficarmos famosos e não nos dispersarmos pela superfície da terra” (p.: 23). O conto, por sua vez, não fala sobre os reais objetivos do prédio, relatando a despreocupação do engenheiro João Gaspar em sabê-los:

Ao engenheiro responsável, recém-contratado, nada falaram das finalidades do prédio. Finalidades, aliás, que pouco interessavam a João Gaspar, orgulhoso como se encontrava de, no início da carreira, dirigir a construção do maior arranha-céu de que se tinha notícia.

É interessante notar que ambas as histórias demonstram a sensação de poder das personagens envolvidas. Na Bíblia, a construção da cidade e da altíssima torre demonstra uma mistura de fama e poder, combinação que chegou a incomodar a entidade divina. Por outro lado, nenhuma entidade no conto fora apresentada como empecilho, e neste caso, João Gaspar exerce função superior, sendo responsável pela organização e sucesso do trabalho. Diferente da leitura contida no livro de Gênesis, a ação humana não está subordinada às interferências de Deus, cabendo ao homem cumprir com a missão que envolveria toda a complexidade de um organismo singular, tratando da parte técnica, da satisfação dos operários e ainda se responsabilizando por evitar possíveis desentendimentos.
Embora o a narrativa bíblica apresente desfecho oposto ao do conto, não se pode negar o diálogo entre as histórias. Neste sentido, “O edifício” acaba recontando a versão bíblica apesar de desconsiderar o detalhe da inferioridade dos homens a Deus; e uma vez que tal detalhe é anulado no conto, o fantástico se realiza com mais propriedade, sem, no entanto, deixar de reconhecer a grandiosidade do empreendimento bem como as limitações da vida humana.

Referências:

RUBIÃO, Murilo. O pirotécnico Zacarias. 6. ed. São Paulo: Ática, 1980.
Gênesis, cap.11 e versículos de 1 a 9.

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