domingo, 1 de fevereiro de 2009

A BUSCA PELO LUGAR SOCIAL EM MALAGUETA, PERUS E BACANAÇO:UMA PONTE ENTRE A PSICOLOGIA E A LITERATURA.- Israel Bilro de Araújo

Para mim, o leitor é um parceiro que eu vou procurar.
João Antônio.


O lugar social e a posição simbólica assumida pelo sujeito em seu grupo.

As relações interpessoais são de extrema importância para a formação do homem enquanto ser participante do meio social, pois é através de afinidades e rejeições que vamos construindo nosso círculo de amizade e nos situando na sociedade como seres construtores e transformadores da mesma (OLIVEIRA: 1984).
Vygotsky (1984) tem como um de seus pressupostos básicos a idéia de que o ser humano constitui-se enquanto tal na sua relação com o outro e na interação com a cultura, que passa a fazer parte da natureza humana moldando o funcionamento psicológico do homem. Diante desse fato, a socialização nos capacita naturalmente e nos torna seres prontos para a descoberta de nosso lugar social. Assim como afirma Nuernberg (1999):

O lugar social consiste na posição simbólica assumida pelo sujeito no grupo, a qual se, por um lado, precede o sujeito por basear-se em fatores históricos e culturais pré-determinados, por outro está continuamente sendo re-construída pelos sujeitos em relação. (p. 96)

Constatamos assim, que o indivíduo possui uma formação psicológica baseada numa criação social, e somente a partir dessa formação é que o individuo terá subsídios suficientes para se relacionar com os demais e se identificar enquanto ser determinado por seu lugar social, num processo que envolve regras, normas, hábitos e convenções oriundas da sociedade e que, se não forem seguidas, poderá gerar confrontos de ordem político-social, pois nós nos inventamos graças à sociedade que nos fez e que pode igualmente nos desfazer. (JANET: 1929).

O lugar social dos excluídos na obra Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio.

Tomando a literatura como um reflexo da realidade e como habilidade humana em cogitar sobre suas experiências sociais e subjetivas, encontramos nos textos literários um reflexo de nossa sociedade em suas mais variadas formas de organização. Oliveira (1984) defende que “a produção literária é um fenômeno social, na medida em que resulta de convicções, crenças, códigos e costumes sociais” (p.78) Diante desse fato, encontramos no livro Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio, uma busca pelo lugar social através da relação de cumplicidade existente entre três personagens socialmente excluídos que se uniram na tentativa de construir sua identidade social enquanto indivíduos pertencentes a um sistema excludente.
A obra retrata a vida de três jogadores de sinuca que convivem na marginalidade, vadiando entre um bairro e outro no submundo da cidade de São Paulo. As personagens Malagueta, Perus e Bacanaço, que dão nome ao título do livro, são a representação de um grupo social excluído que, mesmo em situação de miserabilidade, cultuam laços afetivos entre si e buscam por seus “lugares sociais” através da malandragem e da trapaça no jogo. Assim como podemos constatar nesse trecho da referida obra:

Bacanaço sorria. Funcionavam direitinho, sem supetões, eram tacos de verdade, nascidos para trapacear. Arranjo bom. Malagueta defendendo, o menino Perus se atirando, o entendimento se afinando, certo como um relógio. (p.30).

As personagens identificam-se enquanto companheiros e juntos travam a busca por seu lugar social como “malandros das rodas de sinuca”, mesmo que esse lugar social não seja considerado edificante para a grande maioria da sociedade. Juntos, as três personagens possuem harmonia e são um grupo de iguais que, na artimanha das ruas, usam da malandragem e da “picardia no taco” para conseguirem sobreviver no ambiente hostil em que se encontram: “E em pensamento funcionavam. E os três comendo as bolas, fintando, ganhando, beliscando, furtando, quebrando, entortando, mordendo, estraçalhando...” (p.24).
As personagens do livro têm consciência de suas realidades e tentam, a muito custo, retirar o máximo de proveito daquilo que lhes é oferecido através das rodas de sinuca; certos de que convivem num ambiente social abstruso e fugaz que pode consumi-los se estes não assumirem seu lugar social como bons “trapaceiros” no jogo: “- tudo aqui é passageiro – arrotava. – não é expediente de gente que se preze. Gente moça namora, noiva e casa. É caminho certo. Aqui, não; aqui é o fim”. (p.28).
O ambiente social em que se encontram revela muito sobre as personagens, caracterizando-as como seres repudiados pela sociedade, pois em toda a narrativa há uma interação violenta entre as personagens e o meio inóspito que acaba por refletir os indivíduos que nele convive. Nesse trecho da obra podemos constatar a interação entre os personagens e o meio social em que se encontram:

A cidade expunha seus homens e mulheres da madrugada. E quando é madrugada até o cachorro na Praça da República fica mais belo. Pálidos acordados há bem pouco, saem a campo os rufiões de olhos sombreados, vadios erradios, invertebrados, otários, cara de amargura, rugas e problemas... passavam tipos discutindo mulher e futebol e turfe, gente dos salões de dança, a mulher lindíssima de vestido de roda, passos pequenos, berra erotismo na avenida e tem os olhos pintados de verde... “nem é tanto”, diz um, para justifica-se de não tê-la... mas os olhos famintos vão às ancas... malandros de turfe, ou gente bem ajambrada que cafetinava alto e parecia deputado, senador... vá ver - não passa de um jogador... o camelô que marreta na sua viração mesquinha de vender pente que não se quebra, mulheres profissionais, as minas faziam a vida nas virações da hora... e os invertidos proliferavam, dois passaram agora, como casal em namoro aberto. (p. 42).

No trecho deparamo-nos com a caracterização de um ambiente comum aos que são excluídos por grande parte da sociedade, ou seja, um ambiente noturno que agrupa seres que possuem relações de afinidades com o meio e entre si, já que são os “homens e mulheres da madrugada”. São Indivíduos que possuem suas próprias regras e encontram nesse ambiente certo “acolhimento” para suas práticas nem sempre aceitáveis por grande parte da sociedade. Porém, esse ambiente hostil para muitos de nós, não deixa de ser um ambiente social assim como qualquer outro ambiente útil, de uma forma ou outra, para a formação histórica, social e psicológica do individuo.
Oliveira (1993) afirma que diferentes grupos sociais produzem modos diferentes de funcionamento psicológico e esses modos são válidos para a formação do desenvolvimento humano. Dessa forma, a vida noturna e boêmia dos malandros de roda de sinuca pode atuar como parte importante na formação psicológica desses indivíduos marginalizados, pois na relação de cumplicidade esses sujeitos acabam se transformando, quando adquirem a malandragem necessária para se viver nas ruas, e sendo transformados pela sociedade quando quebram regras e violam as leis pré-estabelecidas na sociedade e recebem por isso uma punição.

Considerações finais

Diante dos fatos apresentados, podemos constatar que o lugar social conquistado pelas personagens do livro é válido para a formação psicológica dos indivíduos que nele interagem, mesmo que esse lugar social contraste com o lugar social tomado com sadio pela grande maioria da sociedade atual, ou seja, um lugar social que preze pela família, pela religião, pelas regras sociais e, sobretudo, pelo respeito ao próximo.
Contudo, a necessidade mútua de companheirismo entre os sujeitos iguais Malagueta, Perus e Bacanaço acaba por determinar a amizade e a estima necessária entre as personagens centrais da obra, pois juntos convivem no submundo das rodas de sinuca e, assim, interdependem-se na busca de seu lugar social: “E os olhos malandros dos três se encontraram, se riram, se ajustaram, gozozamente, na sintonia de um concluio que nasceu dissimulado...” (p.30).

Referências Bibliográficas:

ANTÔNIO. J. Malagueta, perus & bacanaço. São Paulo: Ática, 1987.
BOURDIEU, P. O poder simbólico. Trad. Emanuel Taboja. Lisboa: DIFEL, 1989.
JANET, P. L'évolution psychologique de la personnalité. Paris: Ed. A. Chahine, 1929.
NEVES, W. M. J. As formas de significação como mediação da consciência: um estudo sobre o movimento da consciência de um grupo de professores. Tese de doutorado não-publicada. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: São Paulo, 1997.
NUERNBERG, A. H. Investigando a significação de lugares sociais de professora e alunos no contexto de sala de aula. Dissertação de mestrado não-publicada. Universidade Federal de Santa Catarina: Florianópolis, 1999.
OLIVEIRA, Lúcia Lippi de. Literatura e sociedade; teoria literária e análise sociológica. Em Sônia Salomão Khéde. (org.) Contrapontos da literatura. Rio de Janeiro: Vozes, 1984.
OLIVEIRA, M. K. Vygotsky. São Paulo: Scipione, 1993.
VYGOTSKY. L. S. A formação social da mente. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

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