terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O ASPECTO CROMÁTICO NA OBRA O VÔO DA GUARÁ VERMELHA - José Weslley Barbosa de Lima

O presente estudo buscará debruçar-se sobre a extrema recorrência às cores realizada no romance O Vôo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Resende, de modo a compreender a contribuição desta recorrência para a construção do enredo. Deste modo, não apenas quando usadas pelo narrador para caracterizar determinado personagem ou ambiente, mas também quando utilizadas pelas próprias personagens na sua visão de mundo, as cores serão tomadas como relevantes.
Ora, é perceptível que o aspecto cromático é algo recorrente tanto no título da obra, como nos títulos dos próprios capítulos (amarelo e bonina, verde e ouro, alaranjado e verde), o que nos leva a perceber que sua importância extrapola os limites do texto. Não vemos isso como algo negativo. Muito pelo contrário, parece que, ao entrar em contato com o livro (enquanto estrutura editorial, com seus capítulos, capa, páginas), entramos também em contato com uma extensão do plano textual, como se o próprio objeto já nos preparasse para o que vem dentro dele. Talvez não teríamos o mesmo impacto após o contato com o enredo, caso não houvesse este trabalho extra textual. Aliás, é interessante perceber o quanto o leitor “brinca” de adivinhar onde estão as cores do título do capitulo.
Também percebemos que parece haver um desejo de que o leitor se envolva com o enredo. O narrador deseja que seus narratários se identifiquem com a realidade retratada. É preciso que o leitor compartilhe das mesmas experiências, que, se possível, tenha contato com as mesmas imagens que os personagens. Qual a melhor forma de se conseguir isso? Através das cores.
A cor marca determinada imagem, quer seja de um modo negativo ou positivo. A cor está ligada a nosso estado de espírito. A cor eterniza nossas percepções. Aliás, para um ser tão fortemente dependente do sentido visual como o ser humano, a cor pode significar um estado de alerta, um caminho a seguir.
Não foi isso que aconteceu com Rosálio? A sua percepção do cinza no primeiro capítulo da obra mostra o quanto ele precisa buscar uma forma de fugir daquela vida obscura na qual estava lançado:

Um escuro no oco do peito, uma cegueira de olhos abertos e vendo tudo o que há para ver aqui, nenhum vivente, nem formiga, um cheiro de nada, as paredes de ressecadas tábuas os montes de brita e de areia, cinzentos, a enorme ossada de concreto armado, sem cor os edifícios proibindo qualquer horizonte, um pesado teto cinzento e baixo (p. 11)

Naquele momento, o cinza era um sinal de alerta, mostrando-lhe que aquela realidade não era boa para ele. Buscando fugir daquela realidade que ele se deixa guiar para um caminho que não sabia muito bem qual era. Eis que surge um caminho a seguir... Um sinal vermelho lhe apontava uma esperança, uma possibilidade de dar um novo rumo para a sua vida. Era o vestido de Irene: “Rosálio vê primeiro a mancha vermelha em movimento, surpreendendo-o na dobra da esquina” (p. 15).
Ora, aqui as cores aparecem como que marcando fases distintas, ou pelo menos momentos distintos, ou quem sabe ainda, estados de espírito diferentes. Parece que a vida de ambos só ganha um colorido após a criação de um forte elo. Antes disso, era só sofrimento, necessidades, carência afetiva, tudo isso simbolizado por cores opacas, frias.
Isso serve de “ferramenta” durante toda a obra para que o leitor perceba bem o quão diferentes eram os dois momentos da vida de ambos. Cada um dos momentos, das fases, é marcado por uma cor, que está numa peça de roupa, numa textura do solo, num determinado objeto. Isso é marcado também em nossa mente, toda a emoção daquele momento vira impressões também para o leitor.
É interessante como isso contribui para tornar a leitura interessante. Mesmo falando de uma história triste, marcada por problemas sociais sérios e crônicos de nossa sociedade, retratando a dor de personagens que representam seres humanos reais, a obra não se torna “pesada”. Nos emocionamos sem ficarmos deprimidos, temos a real noção de todos os problemas, mas isso não se faz de um modo desgastante e, mesmo no momento da morte de Irene, não somos tomados por um sentimento fúnebre, mas sim por uma paz, que vem daquele “azul sem fim”.
Tal efeito só é possível devido ao aspecto lúdico que o romance assume. Aspecto este que ganha espaço na obra independentemente do estado de espírito dos personagens. Para ilustrar tal opinião, vamos demonstrar exemplos de recorrência ao aspecto cromático.
Ora, o próprio título da obra já remete à cor vermelha e, quando descobrimos o motivo pelo qual foi escolhido, entendemos que ele não poderia mesmo ser diferente. Ao ver Irene tão magra dentro daquele vestido vermelho, Rosálio lembrou-se de uma guará que vira em uma de suas “andanças” pelo país, agonizando, ferida, sangrando. Não seria Irene também um animal agonizando? Sim, a comparação era perfeita. Irene tinha aquela doença que consumia suas forças. Além disso, outro problema ainda maior a desgastava: a dor interior.
Em alguns momentos a recorrência às cores serve para ressaltar uma realidade negativa. Vejamos o seguinte trecho:

Os garranchos me arranhando, o sangue vivo brotando das feridas nos meus pés, deixando um rastro vermelho, mas nada mais me importava, só queria encontrar logo de onde vinha a cantoria. (p.72)

Está claro que a realidade retratada é de desespero. Rosálio estava desesperado, fugindo, buscando um local para se refugiar. Neste contexto, a cor, no caso o vermelho, surge como símbolo para o seu sofrimento, sofrimento este que se repetiu em grande parte de sua vida. Cria-se uma imagem perfeita em nossa mente daquilo que o narrador quer passar, uma imagem que choca devido à dor e sofrimento que ele retrata.
Outro exemplo disso é a descrição do ambiente ocre que ele encontrou no garimpo. A descrição pormenorizada aliada à cor, nos dá um panorama tão real do ambiente retratado que quando paramos a leitura por um momento para refletir, sentimos até curiosidade em olhar ao redor para ver se as paredes de nosso quarto ou sala de leitura não está com uma coloração ocre, barrenta.
Já em outros momentos, a cor entra como símbolo para um estado de satisfação altamente elevado. Observemos a passagem que segue:

Quer ir comprar um ovo, de gema bem amarela, só pelo gosto e o orgulho de ter o que apresentar ao homem que se levanta (...) volta quase feliz, com um saco de pão doce, capa de coco ralado no creme farto, amarelo, abelhas zunindo à volta e três ovos bem branquinho com que fazer um banquete. (p. 49 - 50)

Neste trecho vemos uma situação completamente diferente. A cor amarela surge simbolizando uma enorme satisfação, levando Irene à “quase felicidade”. Somente quando se está apaixonado é que se consegue ver beleza em uma atitude tão cotidiana quanto preparar um café da manhã. Mas era exatamente disso que Irene precisava: sentir-se amada, sentir-se importante para alguém. A cor é, neste ponto, associada a um aspecto positivo do enredo.
Por que não lembrar dos vestidos de Irene, sempre buscando estar vestida de um modo agradável para as visitas de Rosálio. Sempre buscando fazer com que as impressões visuais dele em relação a ela fossem positivas.
Temos dois extremos: a felicidade e a dor, o sofrimento divididos em dois momentos. Um passado que eles já não querem nem precisam reviver. Um presente que, mesmo na incerteza de um futuro, satisfaz de tão intenso que é. É possível perceber que as cores relativas ao “presente da obra” sempre remetem a momentos felizes. Isso ocorre porque um portal que parecia estar separado o passado difícil de um presente revigorante já fora cruzado. E essa passagem ocorreu no exato momento em que Rosálio se viu atraído por aquele vestido vermelho que Irene usava.
As cores funcionam como um canal entre personagens e leitor, como um suporte com o qual conseguimos apreender o que se passa no interior de ambos. Ora, se estamos tristes, em um determinado período de nossas vidas, com certeza haverá alguma imagem, algum objeto ou local que ficará marcado em nossa mente e, se no futuro voltamos a ter contato com ele, é como se revivêssemos aquele momento ruim. Do mesmo modo acontece quando estamos alegres, satisfeitos, apaixonados, haverá uma música, um perfume, algo que eternize essa sensação em nossa mente. Isso parece acontecer porque o nosso lado emocional está diretamente ligado com a nossa capacidade sensorial. Ora, a partir das cores, que marcam determinadas experiências, o narrador consegue nos passar realmente aquilo que os personagens estão sentindo, como se nos desse várias fotografias, cabendo-nos apenas a tarefa de guardá-las em um álbum e juntando as cenas, reconstruir a nosso modo esta história tão marcante.
Vale a pena também perceber o modo como o romance chega ao seu desfecho. “Azul sem Fim” é o título escolhido para o último capítulo. Irene encontrou ao lado de Rosálio uma felicidade jamais vivida por ela. Foi com ele que ela recuperou o sorriso e a vontade de viver. Porém, ela nunca esqueceu da tal doença. Sabia que mais cedo ou mais tarde seria vencida por ela. No entanto, o momento de sua morte não pareceu de forma alguma um final, mas sim um recomeço. Parecia que naquele momento Irene transcenderia para um mundo de felicidade e paz. Talvez sua morte não fosse tão tranqüila assim se não tivesse conhecido Rosálio. Foi ele quem lhe ensinou a ser feliz e, morrer nos seus braços lhe deu toda a segurança possível. Segurança essa que incitou-a a dizer suas últimas palavras: “Me solte no azul sem fim” (p.180). É como se ela lhe dissesse “estou pronta para morrer, já tive toda a felicidade que poderia sentir”.
É importante perceber que, na maioria dos capítulos, o título é formado por duas cores (verde e ouro, ocre e rosa, vermelho e prata), isso parece surgir do desejo de simbolizar união. Essa união pode vir para instaurar a felicidade em oposição à dor do passado (cinzento e encarnado), mas pode também simbolizar apenas o companheirismo dos dois num momento de extrema paz (amarelo e bonina). Não há o surgimento de uma única cor porque naquele momento os dois eram um só, não havia individualidades. Isso só é quebrado no último capítulo “Azul sem Fim” e é compreensível. Naquele momento deixa de existir “os dois”, uma vez que Irene agora não estaria mais ao lado de Rosálio, mas sim voava, buscava transcender para um azul sem fim e sem sofrimento.
Logo, Maria Valéria Resende conseguiu neste livro unir duas instancias que, logicamente, costumam estar separadas até mesmo por questões lógicas e físicas: personagens e leitor. Foi através das impressões de Rosálio e Irene, de seus sentimentos, medos, aflições e alegrias, que ela conseguiu despertar interesse pelo enredo fazendo com que os leitores também se sensibilizassem com a história, sentindo-se parte dela.
Isso foi possível graças à feliz recorrência ao aspecto cromático. Foi assim que conseguimos penetrar no universo interior de cada um e sentirmo-nos também parte desta história. O livro ao mesmo tempo em que chama a atenção pela inventividade, nos encanta com a simplicidade de retirar de alguns elementos tão simples e cotidianos os elementos para a criação de uma história tão singular.

Referências Bibliográficas:

MOISÉS, Massaud. A análise literária. 15. ed. São Paulo: Cultrix, 2005.
RESENDE, Maria Valéria. O vôo da guará vermelha. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

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