segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

“CACOS PARA UM VITRAL” – FRAGMENTOS DE ADÉLIA EM UMA POESIA MULTIFACETADA - Aluska Silva

Ninguém entenderá bem o que digo
e é bom que seja assim pra que os poemas não desapareçam
e se façam necessários como o ar.
Adélia Prado

Inserida em um universo altamente peculiar, a poesia de Adélia Prado se configura de maneira diversificada e apaixonante. No início de sua leitura, confesso que me senti um tanto perturbada sem saber como é que ela conseguia aliar de forma tão harmônica elementos que aparentemente eram sem nexo, sem realmente nenhuma conexão. Adélia consegue, em um único poema, unir o seu gosto por feijão com arroz à intertextualidade bíblica realizando ai uma fusão de elementos antes impossíveis de provocar em nós alguma reflexão.

1. UM POUCO DA AUTORA

Natural de Divinópolis, Adélia Prado nasceu em 13 de Dezembro de 1935 e lá vive até os dias atuais. Sua vida estudantil foi bastante regular, assim que terminou a escola normal, em 1953, começou a exercer a profissão em uma escola na mesma cidade e, posteriormente, por volta da década de 1960, ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis onde cursou Filosofia, formando-se em 1973.
Sua iniciação enquanto escritora ocorreu nesse tempo e, em 1976, seu primeiro livro (Bagagem) foi publicado, sendo considerado pela crítica sua melhor produção. Os primeiros poemas de Adélia foram enviados a Affonso Romano de Sant’Anna que, por sua vez, os enviou a Carlos Drummond de Andrade, ambos consideraram os poemas de Adélia magníficos, indicando-os à publicação. Sobre o primeiro livro era dirá: “meu primeiro livro foi feito num entusiasmo de fundação e descoberta, emoções para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento.”. Logo em seguida, em 1978 é lançado O coração disparado que ganha o prêmio Jabuti de melhor livro de poesia.
A autora também produziu literatura em prosa: Solte os cachorros (1979 )e, em seguida publicou Cacos para um vitral (1979), Os componentes da banda (1984), e ainda outros em poesia: Terra de Santa cruz (1981), O pelicano (1987) e A faca no peito (1988). Após um período de recessão poética, Adélia publica em 1994 O homem da mão seca, (prosa) depois, em 1999 lança Manuscritos de Felipa (prosa) e Oráculos de maio (poesia), mais recentemente a autora publicou uma novela Quero minha mãe (2005), e um texto infantil Quando eu era pequena (2006).
Voltando agora à produção de 1981, Terra de Santa Cruz, propomos realizar uma passagem por alguns temas recorrentes materializados nos poemas, de forma que, pretensiosamente, este artigo possa instigá-los a uma leitura integral do livro.

2. O LIVRO

Terra de Santa Cruz, como dito acima, foi publicado na década de 1980 e aparece distribuído em 40 poemas divididos em 3 partes: Território, com 28 poemas; Catequese, com 11 poemas; e Sagração, com 1 poema.
Passaremos agora a trazer algumas temáticas consideradas relevantes que perpassam por toda a obra. É evidente que, você em sua leitura, possa encontrar várias outras temáticas, que, aliás, é o forte de Adélia. Boa leitura!

2.1 MISSÃO POÉTICA E PREDESTINAÇÃO

O caráter missionário está presente na poesia adeliana desde Bagagem, e aqui, em Terra de Santa Cruz (doravante TSC) podemos percebê-lo no poema “O Servo”: “Com incompreensível alegria, como um fardo, / carrego a consciência de um dom”. O verbo “carregar” apresenta aqui uma configuração ainda mais significativa para quem já leu o primeiro poema de seu primeiro livro Bagagem: “vai carregar bandeira. / cargo muito pesado pra mulher, / esta espécie ainda envergonhada.”
A consciência de sua missão já se inaugura desde o princípio de seus escritos e em TSC ela acrescenta um valor social que pode ser observado ainda em “O Servo”. Neste poema há um interesse do eu-lírico pelos menos favorecidos, pelos jovens negros que mesmo após a abolição de um regime de servidão ainda sofrem os mesmos maus tratos de outrora. Encontramos nele também um grande traço da autora: a intertextualidade.
O diálogo intertextual mais recorrente neste livro é com a Bíblia, (sobretudo com a figura de Jó) livro sagrado para a autora, dona de uma “fé de dar inveja a vigário”, mas também encontramos outros diálogos, como o que ocorre ainda no poema em estudo: “Achei engraçado quando o poeta tropeçou na pedra, / eu tropeço na lei de jugo suave: ‘amai-os’”. Quem já leu Drummond ou pelo menos já ouviu falar na pedra de “No meio do caminho”, considerado poema-escândalo modernista, entenderá o recurso utilizado por Adélia. Aproximar sua poesia à de Drummond não é inovação de TSC, também no primeiro poema de Bagagem já percebemos essa ligação literária com o autor em “Com licença poética” que apresenta uma intertextualidade cômica e ao mesmo tempo reflexiva com “Poema de Sete Faces”.

2.2 AMOR E EROTISMO

No âmbito dos sentimentos ligados ao corpo e ao coração, temos como exemplo a curiosa ligação feita por Adélia entre o erótico e o divino. TSC apresenta uma sensualidade sem culpa, estreitamente ligada à figura de Deus e a ela direcionada em momentos de dor e de prazer.
Apresentamos, como amostra desta reflexão, o poema “Festa do corpo de Deus”. Nele encontramos uma aproximação humana em demasia da imagem de Jesus: “Jesus tem um par de nádegas!”. Descobertas sobre a figura de Jesus crucificado vão sendo feitas pelo eu-lírico de forma a criar uma configuração meramente carnal, apresentando imagens de seu corpo nu, crucificado, e desejando que ele, na cruz, olhe para esse eu-lírico, provavelmente uma mulher, que o contempla, eroticamente. O fim do poema revela o aprendizado da paixão pela carne, paixão inocente, transformada em amor.
Podemos fazer uma ligação desse poema com “Trottoir”, no que diz respeito a perca da inocência de limites transcendentais. Parece que o eu-lírico que antes não encontrava uma ligação divina para suas fantasias eróticas, agora as encontra e faz questão de sempre ligá-las a algo sagrado. Em “Trottoir” lemos: “Minhas fantasias eróticas, sei agora, / eram fantasias de céu. (...) Para mim veio muito tarde / a revelação de que não somos anjos.”.
Mas é em “Casamento” que o verdadeiro amor, aquele mais simples se revela. Nas palavras de ALVES, (2007):
a obra prima deste livro, no âmbito da representação da experiência amorosa e tudo o que ela tem de contagiante e como pode se manifestar nas experiências mais prosaicas p.13

A aproximação da experiência amorosa aos prazeres de uma vida comum faz de “Casamento” um dos poemas mais representativos de todo livro, pois é de forma sublime que a autora descreve uma relação amorosa à dois, com simplicidade e com correspondência em ambos os lados: “O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez / atravessa a cozinha como um rio profundo.”. Percebemos aqui, que o mesmo “encantamento” provocado no primeiro encontro ainda perpassa a relação, que pelo título sugere que os dois já são casados e mesmo assim, ainda se comportam como “noivo e noiva”.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como dito no início deste artigo, nossa pretensão foi de pincelar algumas impressões acerca de TSC realizadas através de uma experiência individual de leitura, despertando inferências e imagens que permitiram realizar essas considerações a respeito dessas temáticas. Uma leitura realizada a partir de outra ótica pode revelar aspectos diferentes, ou mesmo confirmar os que ora são colocados.
O que indico é que você, leitor, realize sua própria experiência adeliana, que “funde reinos e inaugure linhagens” mergulhando em uma poesia multifacetada, unida como por vitrais, mas apaixonante e especialmente simples.

4. REFERÊNCIAS

ALVES, José Hélder Pinheiro. IN: NOUGUEIRA, Candice (org.). Literatura no vestibular UEPB / 2008. Campina Grande: Bagagem, 2007. p. 07-18.
ALVES, José Hélder Pinheiro. A poesia de Adélia Prado. São Paulo: FFLCH – USP, 1992 (dissertação de mestrado).
PRADO, Adélia. Terra de Santa Cruz. Rio de Janeiro: Record, 2006.

Um comentário:

Anônimo disse...

Fiquei com gosto de quero mais. Ninguém gosta de Adélia mais do que eu, acho até que ela foi feita para mim (risos). A tentativa de definir sua poesia como um “universo altamente peculiar” e que consegue “aliar de forma tão harmônica elementos que aparentemente eram sem nexo”, ainda que saibamos que não é suficiente me faz concordar plenamente.
Em tal poesia, a genialidade ou originalidade está na ligação de palavras que não comporia lógica nenhuma, tal “desconexão” nada mais seria que a técnica literária empregada de forma imperceptível a pobres mortais, com o fim de criar sentidos inimagináveis - “universo altamente peculiar” – e causar um efeito bombástico, pois mexe nas profundezas da alma. Sou modificada a cada poema adeliano descoberto.

Juliana de Paulo