terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

TEMPO E REMINISCÊNCIAS: A REFLEXÃO EXISTENCIAL NO CONTO “A CHAVE” DE LYGIA FAGUNDES TELLES - Rachel Farias Batista Leite

Ah, se pudesse voltar sem nenhuma palavra, sem nenhuma explicação. Ela também não diria nada: era como se tivesse ido comprar cigarros. (TELLES, 1999, p. 75)


O presente artigo se propõe a analisar o conto “A chave”, de Lygia Fagundes Telles, publicado no ano de 1970 como parte integrante do livro Antes do Baile Verde [1]. A análise estará centrada na reflexão existencial realizada pelo protagonista da trama, Tomás, bem como nos recursos lingüístico-textuais utilizados pela autora para revelar a interioridade do personagem.
O aspecto selecionado para nortear o estudo é uma temática recorrente na coletânea analisada – além de estar presente em “A chave”, pode ser identificado nos contos “Verde lagarto amarelo”, “Apenas um saxofone”, “Helga”, “Um chá bem forte e três xícaras”, “Eu era mudo e só” e “As pérolas”. Nessas narrativas, a reflexão existencial é desencadeada por uma situação presente que, ao provocar uma ruptura dos vínculos entre personagem e espaço, acarreta uma sensação de desconforto, de deslocamento. Importante destacar que, nesse contexto, o termo espaço deve ser entendido em uma acepção ampla, de modo a abranger não apenas o cenário físico em que a trama se desenvolve, mas também o conjunto de aspectos que marcam o lugar psicológico, social e econômico em que se inserem os personagens.
Partindo de tais considerações – relativas ao universo ficcional – para a análise da realidade concreta, pode-se afirmar que o espaço assume um papel fundamental na construção da identidade dos indivíduos, pois é no ambiente[2] que o homem encontra os elementos sustentadores da sua compreensão sobre o mundo. Em outras palavras, os indivíduos se enraízam em determinado lugar e, a partir dele, passam a enxergar a realidade e a atribuir-lhe significado. Em virtude dessa íntima relação entre espaço, ser e identidade, os momentos de crise vivenciados pelo homem estão, em geral, associados ao “desconcerto entre o indivíduo e os lugares de sua experiência. Esse desacordo implica numa fratura da seguridade do espaço e da própria linguagem” (GUIMARÃES, 2006, p. 19).
No conto “A chave”, a fragilização do vínculo entre ser/espaço é motivada por um desencontro cronológico: a diferença etária entre os personagens os coloca em lugares sócio-ideológicos distintos e acaba por gerar um terreno fértil para o conflito. De fato, o protagonista, vivenciando uma fase mais madura da vida, mostra sinais de intolerância em relação a uma sociedade marcada pelo culto à aparência – no qual de certa forma ele se lança - e pelo esvaziamento das relações humanas.
O discurso do artificialismo é bastante evidente no comportamento e nas atitudes da sua esposa, Magô – “Ela adorava espelhos, dezenas de espelhos por toda a casa” (p. 72) – fato que acentua o desconforto de Tomás em meio àquela realidade. Essa sensação de deslocamento vivenciada pelo protagonista pode ser percebida pelo tom de revolta com o qual se expressa ao criticar o jogo de aparências e a superficialidade presentes no meio social. Vejamos os trechos abaixo:

Devia haver no inferno o círculo social, aparentemente o mais suportável de todos, mas só na aparência. Homens e mulheres com roupa de festa, andando de um lado para outro, falando, andando, falando, exaustos e sem poder descansar numa cadeira, bêbados de sono e sem poder dormir, os olhos abertos, a boca aberta, sorrindo, sorrindo, sorrindo... O círculo dos superficiais, dos tolos engravatados, embotinados, condenados a ouvir e a dizer besteiras por toda a eternidade. (p. 67, grifo nosso)

Claro que não compreendia nada, a cretina. Festa, festa, festa! O dia inteiro e a noite inteira era só festa, era vestir e desvestir para se vestir em seguida (...) E armar aquela expressão cordial e ficar sorrindo até às cinco da manhã, os olhos escancarados, aqueles olhos mortos de sono!... Mas por quê? Cadelas. Não passavas todas de umas grandes cadelas inventando jantar após jantar para se exibirem. (p. 67-69, grifo nosso)

Apesar de criticar severamente os convencionalismos sociais, o personagem é incapaz de exteriorizar a sua revolta – “(...) teve vontade de gritar. Sorriu com doçura.” (p. 70) – fato que, em última análise, revela a confusão de sentimentos que nutre em relação à sua esposa, um misto de amor, encanto e raiva. Essa contradição de sentimentos fica bastante evidente no seguinte trecho: “Disponíveis. E como se exprimia bem, a sonsa. Contudo, há alguns anos, que enternecedor vê-la roendo as unhas quando se intimidava. Ou morder o lábio quando não sabia o que dizer. E nunca sabia o que dizer” (p. 69). Com efeito, ao conversar com Magô, Tomás procura suprimir a sua irritação e se expressa com tom meigo e suave, demonstrando que, não obstante condene a superficialidade das relações humanas, ele se vale do artificialismo para manter o casamento. Dessa forma, a reflexão existencial fica limitada ao plano íntimo do personagem, circunstância esta que, contudo, não impede a exteriorização dos pensamentos para o leitor.
O personagem, entendido como ser fictício responsável pelo desenvolvimento do enredo, é resultado de um processo criativo desenvolvido pelo autor. Em outras palavras, ainda que sejam baseados em pessoas reais, os personagens são sempre uma invenção e sua existência está adstrita aos limites do texto, do universo ficcional. Em conseqüência, a apreensão da materialidade desses seres só é possível mediante “um jogo de linguagem que torne tangível a sua presença e sensíveis os seus movimentos” (BRAIT, 1993, p. 52, grifo nosso). Analisando os recursos lingüístico-textuais utilizados por Lygia Fagundes Telles para caracterizar e dar consistência ao personagem Tomás, verifica-se que dois elementos se destacam: a onisciência do narrador e o discurso indireto livre.
Segundo o dicionarista Antônio Houaiss, o vocábulo onisciência significa um “saber absoluto, pleno; conhecimento infinito sobre todas as coisas”. Aplicando tal definição ao conceito de foco narrativo[3], verifica-se que o narrador onisciente caracteriza-se pelo fato de não limitar-se à mera observação e descrição dos acontecimentos, revelando o que se passa no plano interno dos personagens. No texto analisado, apesar da focalização onisciente, o narrador abre bastante espaço para manifestação da voz do protagonista, ora utilizando o discurso direto, ora lançando mão do discurso indireto livre.
Dentre os recursos mencionados, o último reveste-se de maior importância no contexto da obra em estudo, não apenas pela freqüência com a qual é utilizado, mas sobretudo por conseguir evidenciar de uma forma mais verossímil os sentimentos e os conflitos interiores vivenciados pelo protagonista. Importante frisar, neste ponto, que os recursos de construção dos personagens não podem ser, a priori, considerados mais ou menos eficazes. A pertinência desses instrumentos só pode ser apreendida no âmbito do texto estudado e depende essencialmente da habilidade do escritor que os maneja.
O discurso indireto livre consiste em uma modalidade de técnica narrativa que resulta da conciliação entre o discurso direto e o indireto. Através dela, a fala e os pensamentos do personagem são sutilmente inseridos no discurso no narrador, permitindo-lhe expor aspectos psicológicos dos agentes da narrativa. A utilização desse recurso apresenta-se como “um artifício lingüístico que dissipa a separação rígida entre a câmera e a personagem uma vez que lhe confere autonomia para auscultar uma interioridade que não poderia ser captada pela observação externa” (BRAIT, 1993, p. 56, grifo nosso). Vejamos a seguir alguns trechos, retirados do texto em análise, nos quais se registra a presença do discurso indireto livre:

Ela agora passava creme no rosto, podia ver-lhe os dedos untados indo e vindo em movimentos circulares. Não precisava dormir? Não, não precisava e quando dormia, acordava impaciente, aflita por recuperar o tempo desperdiçado no sono. A perna quebrada seria uma solução... . (p. 70)

Afeminado ou efeminado? Bocejou. Enfim, uma besta quadrada. E aquelas idiotas babando de maravilhamento. Tinha juventude, mais nada. Crispou os lábios. Tinha juventude. (p.72)

Ela ainda insistiu. Teria mesmo insistido? Os saltos do sapato ecoaram no silêncio como pancadas algodoadas, fugindo rápidas. (p. 75)

Observa-se que a ausência de elementos capazes de demarcar com clareza as palavras do personagem pode levar o leitor a confundir as falas ou manifestações dos locutores com a simples narração. Em outras palavras, ocorre, no discurso indireto livre, uma fragilização dos limites entre os discursos, levando à impressão de que narrador e personagem falam em uníssono. Essa aproximação é marcante no conto analisado, de modo que se pode até mesmo questionar se não haveria uma alternância de foco narrativo.
Em sendo tal hipótese aceita, pode-se afirmar que o Tomás-narrador se manifestaria nos momentos em que o personagem relembra o passado e revisita algumas situações que vivenciou ao lado da sua primeira esposa, Francisca. Esse retorno cronológico é uma decorrência da mencionada quebra do vínculo entre ser e espaço: ao sentir-se deslocado em meio à realidade atual, o protagonista é levado a buscar no passado um lugar capaz de transmitir-lhe a sensação de paz e estabilidade, capaz de reconstituir-lhe a identidade com o presente.
Esse ir e vir no tempo nos coloca diante de duas personagens com perfis completamente antagônicos: Magô e Francisca. Com efeito, a primeira - apresentada como jovem, vaidosa e superficial - representou para Tomás, em um primeiro momento, a possibilidade de uma nova vida, a libertação do casamento infeliz que mantinha ao lado de sua primeira esposa: “Ele foi. Na volta, encontrara Magô. Teve a sensação de nascer de novo quando ela o chamou de Tom. Sentira-se um outro homem. Outro homem” (p. 74, grifo nosso). A energia e a vivacidade da jovem em muito contrastavam com a calma e a simplicidade de Francisca, fazendo-a parecer uma mulher velha, acomodada. Vejamos os trechos a seguir:
As unhas de Francisca eram curtas, unhas de mãos eficientes, com uma discreta camada de esmalte incolor. Unhas e mãos de velha, incrível como as mãos envelheceram antes. Depois foram os cabelos. Podia ter reagido. Não reagiu. Parecia mesmo satisfeita em se entregar, pronto agora vou ficar velha. E ficou. (p. 70, grifos nossos)

Os móveis antiquados. Os vestidos antiquados. A beleza antiquada. “Mas Francisquinha, você precisa usar uns vestidos mais atuais, precisa se pintar!” Deu-lhe um vidro de perfume. Deu-lhe um batom que viu anunciando numa revista (...) Deu-lhe um colar de contas vermelhas, dezenas de voltas vermelhas, “Somos jovens ainda, minha querida! Vamos reagir?” (p. 74, grifos nossos)

Observa-se que, nesse momento da vida, o protagonista empenha-se em tentar resistir à ação do tempo, recorrendo, para tanto, à vaidade. A juventude, dessa forma, fica limitada a uma questão de aparência: o importante é parecer jovem e não sentir-se como tal. Inconformado com a resignação de Francisca diante da chegada da maturidade, Tomás entrega-se ao relacionamento com Magô, na esperança de que dessa maneira pudesse atrasar o relógio e reviver o entusiasmo da mocidade.
As expectativas do protagonista, no entanto, não se confirmam: com o passar do tempo, o comportamento de Magô, ao invés de transmitir-lhe a sensação de conforto e bem-estar, leva-o a sentir-se deslocado. Assim, a juventude que tanto lhe fazia falta passa a ser motivo de uma profunda irritação: “Tanta energia, meu Deus. Havia nela energia em excesso, ai! A exuberância dos animais jovens, cabelos demais, dentes demais, gestos demais, tudo em excesso. Eram agressivos até quando respiravam” (p. 70).
Diante dessa perda de identidade, Tomás volta os olhos para o tempo pretérito e procura (re)construir a imagem de Francisca. Esse processo leva o personagem à constatação de que seu lugar de enraizamento encontra-se no passado, espaço este impossível de ser recuperado concretamente. Essa relação dramática com a experiência vivida, presente em muitos contos lygianos, é abordada com propriedade por Guimarães (2006, p. 28):

(...) a personagem busca se apropriar do passado para promover um princípio de identidade com o presente, mas que por não conseguir realizar esse propósito, experimenta novamente a perda. Essa relação implica a travessia, nunca tranqüila, de espaços, porque o tempo não foi capaz de solucionar o conflito ou frustração passada. Cada retorno, viabilizado pela memória, é uma forma de reviver a dor. Portanto, a crise permanece e a sua existência geralmente não ultrapassa os limites da intimidade. (grifo nosso)

O retorno cronológico, portanto, ao invés de reconstituir a sensação de paz interior, acentua a dor e o arrependimento do personagem, pois ele se depara com uma perda irreversível. Consciente de que uma volta concreta ao passado é impossível, Tomás recorre ao plano imaginativo e refaz em sua mente o episódio que, em sua perspectiva, deu origem a todos esses conflitos, o dia em que saiu para fazer um passeio e encontrou Magô. Nessa remontagem, porém, o desfecho é diferente: Tomás volta para casa, deita-se no colo de Francisca e entrega-lhe as chaves. Diante disso, pode-se questionar se Tomás realmente (re)encontrou a tranqüilidade. Afinal,teria ele conseguido perdoar a si próprio? A dúvida permanece.


REFERÊNCIAS

BRAIT, Beth. A personagem. 5.ed. São Paulo: Ática, 1993.
GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 1991.
GUIMARÃES, Kalina Naro. Três cantos da melancolia em Lygia Fagundes Telles: indicações críticas e ensino. João Pessoa: UFPB, 2006, 143 p. Dissertação - Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2006.
HOUAISS, Antônio. Dicionário da língua portuguesa. Disponível em: . Acesso em: 01 Fev. 2009.
TELLES, Lygia Fagundes. Antes do baile verde. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

[1] A coletânea reúne dezoito contos, escritos no período compreendido entre os anos de 1949 e 1969. A organização das narrativas no livro, entretanto, não corresponde à ordem cronológica em que as mesmas foram produzidas. De acordo com nota da própria autora, os contos são “enfeixados em ordem decrescente – os últimos serão os primeiros”.

[2] Cândida Vilares Gancho (1991, p. 23), ao estudar os elementos da narrativa, traça uma diferenciação entre espaço e ambiente, afirmando que o primeiro seria o lugar físico em que se desenvolvem os fatos da história, enquanto que o segundo constituiria “o espaço carregado de características socioeconômicas, morais, psicológicas, em que vivem os personagens”. Neste trabalho, no entanto, utilizamos os termos espaço, ambiente e lugar como sinônimos.
[3] Por foco narrativo, ponto de vista ou focalização, deve-se entender “a posição ou perspectiva do narrador frente aos fatos narrados” (GANCHO, 1991, p. 26).

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom, Rachel
Parabéns!

Pierre Braz

Juliana de Paulo disse...

Muitíssimo bem escrito. A teoria aparece de forma impecável, mas acho que deveria ousar mais na análise-crítica, salvo o final categórico.

Quanto a seguinte parte:

"Apesar de criticar severamente os convencionalismos sociais, o personagem é incapaz de exteriorizar a sua revolta– '(...) teve vontade de gritar. Sorriu com doçura.' (p. 70) – fato que, em última análise, revela a confusão de sentimentos que nutre em relação à sua esposa, um misto de amor, encanto e raiva."

A ausência de reação ou concordância do personagem talvez se explique pelo fato dele fazer parte do ambiente em que tais comportamentos sejam inerentes.

Amiga, deixa de onda e assume logo que tu és "de Literatura".

Juliana de Paulo

Anônimo disse...
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